[:pb]“Venho dos braços de Morfeu” – o que o ópio, a morfina e a heroína nos contam? (V.2, N.1, P.1, 2019)[:es]”Vengo de los brazos de Morfeo” – Lo que el opio, la morfina y la heroína nos dicen? (V.2, N.1, P.1, 2019)[:]

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Tempo de leitura: 7 minutos

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#acessibilidade Foto da flor Papaver somniferum (Papoila-dormideira), com quatro grandes pétalas de cor violeta e cerca de 10 centímetros de diâmetro.

Texto escrito pela colaboradora Daniele Araújo

Para continuar nossa série “Todo remédio é uma droga”, falaremos hoje sobre o ópio e duas moléculas bastante conhecidas: a morfina e a heroína.

A História Antiga nos conta detalhes importantes sobre as primeiras terapias farmacológicas utilizadas pelo homem. Entre elas estão os relatos de preparações a base de ópio e seus usos terapêuticos. Vocês lembram quando falamos sobre o Papiro de Ébers? Pois é, nesse documento há a primeira descrição de uma mistura de ópio e outros compostos utilizados para induzir sono em crianças (efeito hipnótico), o que muitos anos mais tarde, nomearia a primeira molécula extraída dessa resina, a morfina, em homenagem a Morfeu, deus grego do sono e sonhos.

Mas afinal, o que é ópio?

A palavra ópio faz referência à seiva (suco de aspecto leitoso) do fruto de uma planta chamada Papaver somniferum (originária do Oriente Médio e difundida para outras regiões como América do Sul e Europa). Quando recém-extraído, o ópio apresenta aspecto líquido, mas após contato com o ar essa seiva se solidifica e adquire coloração azul-arroxeada, sendo utilizada para preparação de extratos* ou para inalação (fumo). Os efeitos do ópio como indutor de sono, redutor da tosse e sua capacidade de tratar disenterias tornaram-no popular por muitos anos, mesmo após relatos de efeitos como narcose (sono excessivo e perda de consciência) e alucinações, sendo esses alguns resultados da inalação dos produtos de sua queima nas famosas casas de ópio europeias, durante o século XVIII.

No entanto, somente no século XIX (1803) o farmacêutico alemão Friedrich W. Sertmann isolou a morfina (Figura 1), o primeiro alcaloide (grupos de substâncias químicas extraídas de plantas, com caráter básico e que apresentam um ou mais átomos de nitrogênio em sua estrutura) natural extraído do ópio. Assim, estávamos diante do primeiro fármaco derivado do ópio! Seus efeitos biológicos, decorrentes da interação com proteínas receptoras localizadas no sistema nervoso central (descritos estruturalmente apenas em 1990, após longas décadas de estudos farmacológicos) incluem potente alívio da dor (analgesia), náuseas, euforia, vômitos e supressão da tosse (efeito antitussígeno), mas também alto potencial de dependência.

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Figura 1 – Estruturas químicas da heroína e morfina

Nos anos seguintes, a busca por analgésicos e antitussígenos mais eficazes levou à síntese de uma nova molécula a partir da morfina, denominada diacetilmorfina ou heroína (em 1894, Figura 1), justificando a semelhança estrutural entre as duas. De fato, a inserção de dois radicais acetis na estrutura química da molécula da morfina (detalhe em vermelho, figura 1) gerou a heroína e aumentou a afinidade da molécula pela interação com o local de ação. No entanto, a severa depressão respiratória, causando óbitos, e o alto potencial de abuso (levando às dependências física e psíquica mais potente e rápida quando comparada à morfina), direcionaram a sua nova denominação de fármaco para droga de abuso, bastante relatada até os dias de hoje e associada a óbitos por overdose. A heroína, como fármaco, foi comercializada somente até o final do século XIX e hoje sua síntese, produção e comercialização são proibidas.

A morfina ainda é um dos analgésicos de escolha para o tratamento de dores de severa intensidade e de longa duração (como aquelas associadas ao câncer, por exemplo), mesmo com severos riscos como dependência física, psíquica e depressão respiratória. Atualmente, o uso de moléculas derivadas do ópio para o bem-estar humano, com pouco ou nenhum efeito negativo, ainda continua a ser um desafio significativo para cientistas e profissionais de saúde em geral.

*Para quem tem curiosidade, a História relata (em 1680) o uso de uma bebida denominada láudano que nada mais é do que uma mistura de ópio, vinho, whisky e especiarias.

Fontes:

Fonte da imagem destacada: Louise Joly, one half of AtelierJoly [CC BY-SA 1.0], from Wikimedia Commons.

Para saber mais:

Michael J. Brownstein. A brief history of opiates, opioid peptides, and opioid receptors. Proc. Natl. Acad. Sci. USA. vol. 90, pp. 5391-5393, 1993.

S.L. Cruz, V. Granados-Soto. Opioids and Opiates: Pharmacology, Abuse and Addiction. In: Neuroscience in the 21st Century. D.W. Pfaff, N.D. Volkow (eds.). DOI 10.1007/978-1-4614-6434-1_156-1.

Jones MR, Viswanath O, Peck J, Kaye AD, Gill JS, Simopoulos TT. A Brief History of the Opioid Epidemic and Strategies for Pain Medicine. Pain Ther. 2018 Jun;7(1):13-21.

[:es]

Texto escrito por los contribuyentes Daniele Araújo

Para continuar nuestra serie “Todo remedio es una droga”, hablaremos hoy sobre el opio y dos moléculas bastante conocidas: la morfina y la heroína.

La Historia Antigua nos cuenta detalles importantes sobre las primeras terapias farmacológicas utilizadas por el hombre. Entre ellas están los relatos de preparaciones a base de opio y sus usos terapéuticos. ¿Recuerdas cuando hablamos sobre el Papiro de Ébers? En ese documento está la primera descripción de una mezcla de opio y otros compuestos utilizados para inducir el sueño en niños (efecto hipnótico), lo que muchos años más tarde, nombraría la primera molécula extraída de esa resina, la morfina, en homenaje a Morfeo, dios griego del sueño y sueños.

Pero al final, ¿qué es el opio?

La palabra opio hace referencia a la savia (jugo de aspecto lechoso) del fruto de una planta llamada Papaver somniferum (originaria de Oriente Medio y difundida para otras regiones como América del Sur y Europa). Cuando recién extraído, el opio presenta aspecto líquido, pero después del contacto con el aire se solidifica y adquiere coloración azul-morada, siendo utilizada para preparación de extractos(*) o para inhalación (humo). Los efectos del opio como inductor de sueño, reductor de la tos y su capacidad para tratar disenterías lo han hecho popular durante muchos años, incluso después de relatos de efectos como narcosis (sueño excesivo y pérdida de conciencia) y alucinaciones, siendo estos algunos resultados de la inhalación de los productos de su quema en las famosas casas de opio europeas, durante el siglo XVIII.

Sin embargo, sólo en el siglo XIX (1803) el farmacéutico alemán Friedrich W. Sertmann aisló la morfina (Figura 1), el primer alcaloide (grupos de sustancias químicas extraídas de plantas, con carácter básico y que presentan uno o más átomos de nitrógeno en su estructura) natural extraído del opio. Así, estábamos ante el primer fármaco derivado del opio. Sus efectos biológicos, derivados de la interacción con las proteínas receptoras ubicadas en el sistema nervioso central (descritos estructuralmente sólo en 1990, después de largas décadas de estudios farmacológicos) incluyen un potente alivio del dolor (analgesia), náuseas, euforia, vómitos y supresión de la tos (efecto antitusígeno ), pero también un alto potencial de dependencia.

morfina heroína - [:pb]“Venho dos braços de Morfeu” - o que o ópio, a morfina e a heroína nos contam? (V.2, N.1, P.1, 2019)[:es]"Vengo de los brazos de Morfeo" - Lo que el opio, la morfina y la heroína nos dicen? (V.2, N.1, P.1, 2019)[:]
Figura 1 – Estruturas químicas da heroína e morfina

En los años siguientes, la búsqueda de analgésicos y antitusígenos más eficaces llevó a la síntesis de una nueva molécula a partir de la morfina, denominada diacetilmorfina o heroína (en 1894, Figura 1), justificando la semejanza estructural entre las dos. De hecho, la inserción de dos radicales acetilos en la estructura química de la molécula de la morfina (detalle en rojo, figura 1) generó la heroína y aumentó la afinidad de la molécula por la interacción con el lugar de acción. Sin embargo, la severa depresión respiratoria, causando muertes, y el alto potencial de abuso (llevando a dependencias físicas y psíquicas más potentes y rápidas cuando comparada con la morfina), llevaron a su nueva denominación, de fármaco a droga de abuso, bastante relatada hasta los días de hoy y asociada a muertes por sobredosis. La heroína, como fármaco, fue comercializada solamente hasta el final del siglo XIX y hoy su síntesis, producción y comercialización están prohibidas.

La morfina sigue siendo uno de los analgésicos de elección para el tratamiento de dolores de severa intensidad y de larga duración (como aquellas asociadas al cáncer, por ejemplo), incluso con severos riesgos como dependencia física, psíquica y depresión respiratoria. Actualmente, el uso de moléculas derivadas del opio para el bienestar humano, con poco o ningún efecto negativo, sigue siendo un desafío significativo para los científicos y los profesionales de la salud en general.

(*) Para quien tiene curiosidad, la historia relata (en 1680) el uso de una bebida denominada láudano que nada más es que una mezcla de opio, vino, whisky y condimentos.

Fuentes:

Fuente de la imagen destacada: Louise Joly, one half of AtelierJoly [CC BY-SA 1.0], from Wikimedia Commons.

Para saber más:

Michael J. Brownstein. A brief history of opiates, opioid peptides, and opioid receptors. Proc. Natl. Acad. Sci. USA. vol. 90, pp. 5391-5393, 1993.

S.L. Cruz, V. Granados-Soto. Opioids and Opiates: Pharmacology, Abuse and Addiction. In: Neuroscience in the 21st Century. D.W. Pfaff, N.D. Volkow (eds.). DOI 10.1007/978-1-4614-6434-1_156-1.

Jones MR, Viswanath O, Peck J, Kaye AD, Gill JS, Simopoulos TT. A Brief History of the Opioid Epidemic and Strategies for Pain Medicine. Pain Ther. 2018 Jun;7(1):13-21.

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