(V.5, N.11, P.1, 2022) —

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Texto escrito por Paola Caroline de Oliveira, Wandson Lukas do Nascimento Amorim em colaboração com a atriz Isabel Teixeira

“O homem é mais poderoso em corpo e mente que a mulher, e no estado selvagem, ele a mantém numa condição de servidão muito mais abjeta que o faz o macho de qualquer outro animal; portanto, não surpreende que ele tenha ganhado o poder de seleção”, escreveu Charles Darwin no segundo volume de A Origem do Homem, publicado em 1871. Um texto do século XIX que, ainda hoje, encontra eco em nossa sociedade dadas as heranças tão fortes que o machismo ainda traz. Pensadores como Rousseau, Schopenhauer, Vogt, Nietzsche e Freud traziam também a ideia da “inferioridade feminina” remontando à Grécia Antiga, o que refletiu na participação da mulher em diversas áreas, incluindo a Ciência.

Cláudio Galeno, um médico romano, idealizador do “sexo único” acreditava que havia UM sexo a ser considerado como padrão de perfeição: o masculino. O corpo feminino seria uma versão menos desenvolvida do masculino, o que, durante o século 19, foi usado para dificultar o acesso a outros espaços que não fossem o lar. Neste sentido, outros estudos (conduzidos por homens) validaram a ideia de que certos grupos, como mulheres, seriam inferiores e que, por isso, estariam à deriva da subordinação política, social e intelectual.

Schopenhauer dizia que “é evidente que a mulher é, por natureza, destinada a obedecer e a prova disso é que ela se liga não importa com que homem, para que ele a dirija e domine, pois ela precisa de um senhor. Se é jovem, procura um amante, se é velha, um confessor”. E, infelizmente, essa ideia de submissão total de mulheres se reforçou ao longo do tempo. Mesmo com o crescimento do movimento feminista e o ganho de espaço nas artes, política, ciência e outras áreas, ainda há uma barreira a ser vencida quanto ao espaço da mulher na sociedade.

Mas será que dá para discutir e aprender sobre tudo isso assistindo novela? Claro que dá! Recentemente terminada, Pantanal dentre outras pautas, trouxe à tona o poder de uma mulher: a história que ganhou o público e fez o país parar foi a de Maria Bruaca (ou carinhosamente, Mary Bru) vivida pela atriz Isabel Teixeira, que fez o grande público virar noveleiro e discutir questões como machismo, empoderamento, representatividade, sexualidade feminina e violência doméstica. Mas o que será que estaria por trás das mudanças em relação ao acolhimento da personagem (na versão anterior da novela, a personagem foi meio que condenada pelo público)? Como lidamos com as pressões do “tempo para fazer tudo”, a busca pelo corpo ideal, representatividade, como tem sido isso através do tempo?

Para ajudar a entender esse tema, trazemos uma conversa com a atriz Isabel Teixeira, em que ela ressalta as mudanças vividas e conquistadas de maneira recente pelas mulheres: “Em 1975 é quando um bando de mulher se junta para falar da legislação feita só para os homens e não para as mulheres. Em 1988, que é o ano da Constituição, é a primeira vez que a gente tem alguma coisa pela inserção da mulher na legislação brasileira. Porque o mundo é feito pelos homens e para os homens”.

Ainda falando das mudanças de paradigmas ao longo dos anos, a atriz diz que: “Não dá mais para você ter na legislação criminal brasileira um artigo que defende a vingança por honra, isso aí não pode, então tira que não pode mais.” A atriz ainda completa: “as famílias mudaram, a estrutura das famílias mudou, toda questão de gênero tem a ver com isso, se você for pensar bem”.

Com as diversas discussões levantadas durante os meses no ar, Pantanal se tornou um marco cultural, tal qual a personagem de Isabel e, trazemos a seguir o resultado desta conversa enriquecedora com a atriz que, gentilmente, contribuiu para a construção deste texto:

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Isabel Teixeira, 48 anos, atriz, dramaturga, diretora, escritora, editora, pesquisadora, ilustradora. Foto: Jorge Bispo

Paola Oliveira: Bel, a relação do público com a Maria mudou muito em 32 anos, apesar de a história da personagem ser a mesma, e muitas mulheres que assistiram a novela em 90, fizeram o mesmo este ano e mudaram a forma de ver e entender a personagem. Nas histórias que chegaram pra você, chegaram histórias de mulheres que mudaram a visão sobre a Maria?

Isabel Teixeira: Chega, mas chega meio disperso, sabe? O que chegava e ainda chega muito pelo Instagram, particular para mim são histórias que avó passou, que a mãe passou, pessoas mais jovens entendendo o que a mãe passou. Então chegava para mim algumas coisas, mas o que mais chegou, foi essa disseminação da ideia da personagem sabe? Me marcavam em posts da vara familiar, isso rolou muito. Mas da diferença, eu fui compreendendo inclusive depois de uma conversa com a própria Ângela (Leal, que interpretou Maria Bruaca na versão de Pantanal em 1990). Saiu uma matéria legal falando sobre isso, é uma matéria da Marie Claire que eu fiz, uma repórter fez um artigo falando da diferença entre 90 e agora. Só que eu assisti à novela em 90, eu tinha 15 anos, então eu vivenciei essa diferença, vivenciei fazendo a novela, mas eu vivenciei. E estou aqui vendo, lendo e me inteirando com aquilo ali do mesmo jeito que o público. Então, eu entendi um monte de coisa. Mas de 2010 pra cá, senti na pele mesmo, o começo uma tomada de consciência, uma coisa cultural, de formação. A gente entende a família, como sociedade, então a gente entende que tem o pai, a mãe e os filhos e que isso é o núcleo mais importante, e os tios são secundários. A gente aprende isso, que o certo é casar e se reproduzir. Eu lidei com isso durante a vida inteira, sempre foi criada uma perspectiva de que quando eu estava sozinha era sempre momentaneamente, o objetivo era sempre estar com alguém. Então, quando eu estava sozinha as pessoas falavam “o que tá acontecendo que você tá sozinha?”

A gente estava sempre vivendo em relação a um olhar de uma sociedade construída há séculos, que tem muito a ver com o que Darwin falou. A gente só foi matriarcal quando não contava tempo ainda, como os maias e outras civilizações. Mas isso é uma construção muito antiga e que dava nisso, nessa pessoa que fui eu crescendo na década de 90, e ficando mais velha, eu casei, tive filho… Hoje em dia, eu me pergunto: era para ter casado e ter tido filho mesmo? E era, porque foi uma escolha ter filhos, mas desse jeito eu dei sorte, eu acho, porque podia ter sido uma coisa que você fala “cara, eu não queria ter feito isso, porque as coisas se movimentavam a partir daí”.

Isabel ainda fala sobre uma questão muito importante, o gênero que, dadas as heranças conservadoras, defendidas amplamente por cientistas respeitados durante muito tempo, ainda permanece como uma questão:

Isabel: Agora, em 2010, foi o ano que eu tive minha filha, e é um ano muito importante para mim, porque eu comecei a ter contato um pouco como a questão que também é muito antiga, a questão do gênero, do livre arbítrio, da escolha. Quando o Laerte, virou a Laerte para mim foi uma coisa que eu parei para entender, eu sempre gostei do Laerte, de ver aqueles quadrinhos. Quando ela faz esse movimento eu paro para entender. Inclusive, depois eu fiquei amiga do filho dela, que chama ela de pai – é um combinado, aquilo desestruturou um pouco a minha cabeça num ótimo sentido. Depois eu tive uma experiência também com o Mari, que é um escritor, poeta. Eu fui chamada pelo Sesi para fazer um encenação de uma peça dele, só que quando eu fui chamada foi um processo longo, porque, enfim, você é chamado dois meses antes para fazer uma leitura encenada, que eram de novos dramaturgos e, quando eu li a peça do Mari pela primeira vez, o Mari ainda era a Mari, e fez a transição nesse período, e eu falava com ele no telefone e minha cabeça tinha que funcionar para trocar o gênero, e eu falava para ele: Isso aqui é mudança de linguagem, estão acontecendo sinapses diferentes na minha cabeça. Eu comecei a ver que estava acontecendo no mundo, então foram me caindo fichas assim, que essa estrutura familiar que a gente vive é uma estrutura que nos foi dada há muito tempo.

Ainda falando sobre sua mudança de visão sobre sua personagem, Isabel conta:

Isabel: E quando veio a novela, eu a revi no YouTube e saquei! Na época que eu assisti, foi uma novela que ofuscou tudo que se produziu culturalmente naquele ano. Essa novela foi um sucesso, eu me lembro muito do nu, o nu que eu nunca tinha visto na TV aberta, o nu feminino só de corpos perfeitos, mas não me lembrava muito da potência da personagem da Maria. Eu assisti de novo e percebi isso. Foi uma coisa que o Papinha (um dos diretores da novela) falou desde o começo sabe? A sensualidade não está no nu do corpo feminino. Quando eu fui fazer minha primeira cena, eu toda machucada com a minha autoestima, com meu corpo, porque eu fiquei 8 anos em uma peça onde eu era a única que não podia tirar roupa, e isso era uma questão sim, apesar de não ser dita. E acho que nem sei se era percebida pela concepção do belo, nesse caso eu acho que não é percebida. Você entende quando eu falo não é percebida, que a pessoa não tem consciência de que está agindo daquela maneira, por que ainda não teve a desconstrução? Que é uma coisa que, hoje em dia, eu acho que a gente tem que acolher uns aos outros e falar “galera o mundo está mudando!” sabe? Eu, na sala de ensaio, poderia ter agido de outra forma também, mas eu agi na retenção, na reclusão, no “põe uma roupa larga em mim!

Voltando a falar dos corpos, no primeiro dia de filmagem com Papinha que eu gravei, minhas primeiras cenas foram ao ar livre, com o Papinha dirigindo no Pantanal, ele falou para mim assim: Tira a roupa para entrar na água! E eu falei: Não! Não Papinha, meu peito é caído, você vai me expor em rede nacional? E ele falou: Não, não se trata disso, você não vai ser exposta, porque não é isso que eu vou mostrar. E foi uma conversa tão legal, e o que aparece sou eu, tirando a roupa e o body (roupa íntima) dentro. Mas realmente não é a questão. A questão era: uma mulher que se sente livre depois de 30 anos sufocada e quer estar em simbiose com aquela natureza. Isso é tirar a roupa, não é para seduzir o outro, nem o público, nem a câmera, nem o ator, nem o personagem. Tinha uma coisa infantil nisso sabe, de criança que tira a roupa para entrar no rio. Não com intuito de seduzir, porque me ensinaram que seduzir é assim e que isso vai encantar – porque nem tem a palavra sedução na cabeça dessa mulher. Então, o que fica para mim entre 1990 e 2022 é isso, mas fica também um espanto, como você mesma apontou, de que essa realidade ainda é normal, essa realidade dessa estrutura familiar que não se sustenta, e que a gente não consegue sair porque está construído. Como é que ela vai desconstruir que ela tem que estar casada, que ela só é alguém casada com uma outra pessoa, que é o que está nas suas citações do Schopenhauer e do Darwin, entendeu? Como é que ela vai desconstruir isso sozinha, sem ninguém para conversar, sem um livro para ler, sem referência? Então, ela vai tateando modos, e essa sedução, essa sexualidade se aflora com o Alcides ali, que no começo é totalmente caótica, porque nem é com ele, é com ela mesma, com ela mesma de raiva que ela imagina o marido deitando com outra. E se vê fazendo a mesma coisa, então tem um percurso aí de desconstrução que me salta aos olhos que é uma coisa que a gente ainda está muito arraigado, é muito recente.

Tratando da relação do público com a história da Maria Bruaca e o papel importante da novela, enquanto provocadora de reflexão, Isabel diz:

Isabel: É por isso que eu acho bonito quando você fala da novela como aprendizado que o público teve dessa trajetória da Maria Bruaca, que vira Maria Chalaneira, que vira Maria. O público viver essa trajetória junto, experienciar essa trajetória junto, e aí gente está falando de um país e da função primeira da cultura. É uma história, é uma narrativa que traz uma experiência para trazer exemplo, e não exemplo que tem que ser seguido, mas para você olhar para si próprio. Isso é a função primeira da cultura e ela funciona na novela, ela funciona numa novela que fala tão perto da gente, que fala para todo mundo entender.

Tem uma coisa também bonita nesse sentido, que é o autor da novela, ele tem que falar para todo mundo, e isso não é fácil! Eu estou escrevendo aqui e eu não estou com a preocupação de falar para todo mundo. Estou com a preocupação de composição, que tem a ver com a minha pesquisa, que tem a ver com a minha linguagem, com jeito que eu quero falar – também porque eu posso. Mas eu não estou com uma preocupação de público continental, que o autor de novela tem que ter, e isso tá na base do que é folhetim, sabe? Que é o rodapé do jornal onde você conta uma historinha que vai continuar na edição que vem, que tem que ser para todo mundo comprar o jornal. Isso tá na base da novela, e isso é maravilhoso porque quando você vê uma novela brasileira, falando da mulher que vira onça, do velho que é e não é, que está e não está, qual é o limbo que ele vive, o entre planos que ele vive e isso também tem tocado o Brasil inteiro. É uma visão de uma mitologia que é para todo mundo que tem uma coisa meio de Xamã, de Rabino, de conselheiro, que não importa a religião, e que une todo mundo. Isso é cultura!

A história que conta e serve de exemplo pra você se ver e, no caso da Maria Bruaca, todo mundo fazer a trajetória dela juntos e juntas, porque sim, estamos todos em algum nível vivendo muitas desconstruções, não só a da família, não só do gênero, do racismo estrutural, que é uma palavra que tem que ser de novo falada, falada e falada, do machismo estrutural, mas tudo isso junto. É muita informação para a gente digerir e trazer pro aqui e agora e estar num mundo melhor. Isso é algo que nem eu nem você vamos ver, a gente está no processo de nomear, conversar, falar, construir, desconstruir e errar muito.

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Isabel Teixeira. Foto: Jorge Bispo

Paola: Estamos numa sociedade ainda extremamente machista, conservadora, e assusta o que vimos nas eleições, por exemplo, pela ideia de que estaríamos diferentes. Apesar de termos andado bastante, ainda temos esses comentários de um machismo muito intrínseco nas pessoas, ainda tratamos muita coisa como tabu e a novela vem como um agente facilitador para trazer algumas discussões:

Isabel: Facilitador por que coloca todo mundo no mesmo diapasão que é o da história. Acho que tem certas coisas que pela história se entende juntos e nem precisa mais ser dito, porque essa questão geracional ela é muito delicada também, sabe por quê? Às vezes uma pessoa mais velha pode compreender uma mudança de paradigma de um jeito que não precisa ser direto e na conversa. Pode ser na prática ou por uma história, e isso não é que ela vai começar a falar sobre, mas ela vai começar agir de outro jeito. De novo, a gente volta para a importância da novela enquanto fator cultural que une e educa. Educar também não é uma palavra boa. Educar parece que tem uma hierarquia e uma coisa de certo e errado. Mas é experienciar, trazer para gente, um estar junto com o todo de um outro jeito, entende?

Pegando só o que você trouxe agora aqui na conversa, o machismo na Ciência e a novela –  (é) uma questão da linguagem. Não sei se você ouviu esse podcast sobre o Darwin (ouça esse aqui, por exemplo: Freud e Darwin) , é muito legal para conhecer a visão do mundo dele, da época. As duas meninas contextualizam maravilhosamente bem: elas pegam Darwin enquanto um escritor de literatura científica, é uma visão de mundo da biologia, e ele é um homem do tempo dele, e quando você o traz, eu penso “Não vamos cancelar o Darwin!”, tem que ver o contexto.

Agora o que aconteceu com o Monteiro Lobato, que eu acho que está para acabar, ele é um homem do tempo dele. Toda questão com a Tia Nastácia, do racismo dele, existe sim, está lá escrito, só que a gente tem que contextualizar ao mesmo tempo sim, porque ele é um grande escritor infanto-juvenil, não pode ser cancelado. Na Globoplay, as novelas antigas têm uma tarja, há pouco tempo que eles começaram a colocar, isso que é maravilhoso, isso aqui é uma novela de época que foi concebida na década de 70 e os costumes e as morais naquele tempo não são o que gente defende hoje. Tudo tem que começar a ser assim, a gente tem que se informar.

Paola: Muito do que vemos ainda, dessa sociedade conservadora, vem da criação. Vai se criando e ficando, passando de gerações.

Isabel: É isso que eu também estava te falando que eu fui sacando de 90 para cá, por conta sim desse exercício de ver as duas (versões de Pantanal) e tanta coisa mudou em 32 anos. É tão pouco isso ainda, mas já é uma mudança que eu com 48 (anos) penso: Se em 32 mudou assim, imagina em 200, que legal! Legal porque está uma luta. Você se assustou nas eleições agora, eu não, sabe por quê? Porque ao mesmo tempo é uma coisa real, que existe, o pensamento retrógrado – ele coexiste com as mudanças de paradigmas. Um não é melhor do que o outro, o tempo eles são sobrepostos. Tem coisas que aconteciam no século XIV, e que ainda acontecem hoje, e não são necessariamente ruins, são as tradições, são coisas que se repetem, e não necessariamente isso é ruim. Mas enquanto máquina social que somos, porque a gente tem que viver em sociedade, a gente tem que mudar, tem coisas que não dá mais para ser como era antes. Mas voltando à novela nesse sentido, essa especificamente, o que eu acho também que essa veio no momento que aconteceu uma mágica com as questões que a novela trouxe, porque não foi só uma questão, foram várias e de um jeito que não era didático – é um jeito vivencial dentro da história. Às vezes, tem autores que fazem uma coisa mais didática, informar mesmo, na novela até tinha, mas estava tão inserido na história, tão misturado com história, eu acho que isso é muito do Bruno (Luperi, autor da novela), ele trabalhou muito, foi um trabalho árduo de como não desestruturar a obra e fazer como que ele conseguiu.

Voltando para o tema, a história como nas aldeias dos povos mais primitivos, a história ela é para todos, para todas e une as pessoas em volta da fogueira. As pessoas vão pensar nas suas próprias atitudes, nas suas próprias vontades, nas suas próprias vidas com uma história. Não é à toa que temos a literatura tradicional, oriental, árabe, religiões que contam histórias, os judeus fazem isso, a própria Bíblia é uma contação de histórias que você pega como exemplo. A novela também é uma contação de história que você pega como exemplo, para unir, não para gerar uma briga. A história é um lugar de união, volto a falar com a minha frase chavão “é a função primeira da cultura”. Quando não há cultura entre um povo, só há eu contra ou a favor, eu acho isso eu acho aquilo, você está banido, você está incluído. Então, há 10 anos, talvez eu não pensasse assim, porque não era o momento de pensar assim para mim, na minha história, mas hoje em dia, em 2022, eu com a minha formação, acho que a novela é além de ser um patrimônio, ela é um instrumento que esse país tem, e que tem que louvar para unir, num momento que a gente está muito contra ou a favor.

Paola.: Pegando o gancho do que você falou sobre o mundo ser feito pelos homens e para os homens, que foi até uma cena da Maria com a Guta, se você pudesse enumerar o que você faria para gente caminhar um pouco, você conseguiria?

Isabel: Eu não faria essa numeração, porque eu acho que é uma coisa particular de cada um. Mudança de linguagem não é almanaque, manual de como agir, é uma coisa muito pessoal. Então, talvez essa numeração faça parte do meu processo mas não faça parte do seu. No coletivo, em sociedade, e pensando nessa estrutura que é de retrocesso e avanço, acho que o chão do planeta terra ele é feito de atrito entre retrocesso e avanço, e coexiste, está aí, sempre estará, sempre esteve. Mas eu enumero uma coisa que é a gente aprender individualmente, e eu acho que isso não é nada fácil. Eu estou me debatendo com isso ontem, hoje, anteontem e sempre, que é aprender a se escutar para ver se isso é bom para você ou não. E se escutar para poder escutar o outro. Então eu não enumeraria porque eu acho que não é uma ciência lógica, é uma coisa muito humana mesmo. É isso que estou te falando, não acho que é reto, que a gente tem que enumerar, eu acho que é pela cultura, sempre. Estou fazendo minha parte, porque eu quero contar histórias e de maneiras muito diferentes. No livro, para poucas pessoas entenderem, numa novela, para todo mundo ver, de acordo com o que estou sentindo naquele momento.

A gente não vai doutrinar, doutrinar é queimar. Nem excluir, que também não é legal. A gente vai unir, a gente mistura, a gente trabalha as minhas ruínas com as tuas ruínas, eu vou dançar sobre as ruínas. A vida é muito curta e eu quero dançar muito, porque estou a fim de dançar. Então tem essa coisa da gente começar a ficar angustiada, querendo mudar o mundo e a gente não vai mudar. Eu vou fazer uma parte aqui – conversando com você hoje, eu conversei com uma pessoa ontem, eu fiz a novela… e tudo errando, também estou trabalhando sobre as minhas ruínas. Então não é tão reto o processo, não dá para enumerar.

Paola: Ainda vivemos numa sociedade onde mulheres parecem ter “data de validade” para tudo. E já ouvi que 30 é a idade do sucesso, então até essa idade tem que estar tudo pronto, mas a realidade não é bem assim…

Isabel: De novo, é pensamento do século XIX. Quando Balzac escreve a mulher de 30 anos, é isso aí, é uma mulher de 30 anos que já é velha. Hoje, o mundo não vai mudar, mas você vai escolher a frequência que você vai querer vibrar, é um exercício diário. Por que, quem falou isso? Quem falou que com 30 tem que estar tudo pronto, não está te escutando, não está vendo a trajetória. Tem que ver a frequência que eu quero vibrar, eu posso escolher!

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Isabel Teixeira. Foto: Jorge Bispo

Para finalizar, Isabel ressalta o papel importante da novela para conversar com todas as pessoas ao redor do país, onde não chegam outros veículos de discussão, como streamings:

Eu acho importante escrever sobre a novela porque muita gente tem preconceito com novela. Eu acredito que tem uma pessoa lá na ponta do Brasil que tem uma televisão numa ruazinha de estrada, que as pessoas vão assistir juntas, e tem a mesma percepção, entendeu? E vai streaming para lá? Não vai. A pessoa vai assistir I may destroy you? Não, vai assistir novela, da Rede Globo.

Durante toda a conversa, Isabel trouxe o papel primordial da cultura, o de trazer reflexão. Para a atriz, além de ser patrimônio cultural, a novela desempenha um papel social. Aqui, apresentamos um recorte da longa conversa que tivemos com Isabel, teremos oportunidade de tocar em outros assuntos mencionados pela atriz.

Assim, finalizamos com falas de uma grande mulher, a Primeira Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff:

Sei que nos momentos difíceis cada uma de nós busca força e inspiração nas mulheres que ao longo da história resistiram a todas as formas de opressão. Naquelas que apareceram diante do mundo e em todas as mulheres anônimas e suas lutas anônimas. A elas agradeço a possibilidade de ocupar esta tribuna e de dizer a todas as meninas e mulheres do mundo que com coragem, tenacidade e altivez, é possível conquistar os nossos sonhos.

Para ler mais:

Quatro Cinco Um: a revista dos livros – O que Darwin pensava sobre as mulheres

De Darwin a Harvard: as mentiras que a ciência já contou sobre mulheres – 14/02/2019 – UOL Universa

Ser especialista não liberta (nem Darwin) de preconceitos, diz escritora – 16/10/2017 – UOL TILT

 

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