Preste atenção! Neurociência explica o que você viu mas não viu (V.1, N.5, P.2, 2018)

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Tempo de leitura: 6 minutos
#acessibilidade Memorial australiano em homenagem ao Capitão James Cook, em Canberra na Austrália, com um globo terrestre metálico mostrando a trajetória da expedição de Cook. Ao fundo se vê o rio Molonglo e do outro lado a cidade.

Texto escrito pela colaboradora Gloria Santucci do Neurocast

A frase “você pode até ter olhado, mas não viu” pode ser mais verdadeira (e cientificamente correta) do que imaginamos: isso porque os estudos de percepção da Neurociência apontam que podemos até processar aquilo para o qual não voltamos nossa atenção, porém só teremos consciência quando nossa atenção está focada no objeto.

Mas o que isso significa? Quer dizer que, se não prestamos atenção a um objeto, som, cheiro ou imagem (os quais chamamos de “estímulos”), sua informação não chega ao nosso consciente e pode até parecer que são descartadas, como se nunca tivessem nem passado por nós. Isso acontece bem mais do que gostaríamos de acreditar.

Um experimento muito simples a respeito disso foi realizado com uma equipe de basquete. Veja o vídeo do teste:

A atenção serve para darmos mais importância a certos estímulos em detrimento de outros. Você pode perceber isso quando consegue ouvir e entender claramente um colega mesmo numa festa com várias outras pessoas conversando ao mesmo tempo ao seu redor.

Agora voltando ao vídeo, você reparou no gorila que aparece no meio do jogo? Acredite, metade dos entrevistados não viu a pessoa vestida de macaco que desfila entre os jogadores.

Isso acontece em muitas situações. Em um polêmico estudo com radiologistas, foi inserida a imagem de um gorila em uma chapa de tomografia e os médicos foram testados se viam o animal. Utilizando uma técnica chamada de eye tracking, a qual permite saber para onde o olhar da pessoa é direcionado entre outras medidas do comportamento ocular, foi possível concluir que os médicos olhavam para a região onde estava a figura do gorila, mas diziam não tê-lo notado. Mais de 75% dos entrevistados relatou não encontrar nada diferente no exame. Esse fenômeno é chamado de inattentional blindness, ou cegueira por desatenção.

Um outro exemplo de como nossa atenção é limitada é a cegueira à mudança. Veja o GIF abaixo:

neuro - Preste atenção! Neurociência explica o que você viu mas não viu (V.1, N.5, P.2, 2018)

#acessibilidade Memorial australiano em homenagem ao Capitão James Cook. No gif se alternam a imagem em questão e um fundo completamente branco.

Você notou alguma diferença? Em quanto tempo?  Aqui estão as imagens lado-a-lado. Tente achar todas as diferenças!

1 - Preste atenção! Neurociência explica o que você viu mas não viu (V.1, N.5, P.2, 2018)
Fonte: By Globe_and_high_court.jpg: created by jjronGlobe_and_high_court_fix.jpg: created by jjron, edited by Fir0002derivative work: WikiCantona [GFDL or CC-BY-SA-3.0], via Wikimedia Commons
#acessibilidade Mesma imagem do gif, mas na verdade entre um fundo branco e outro, duas imagens diferentes eram mostradas. Algumas das diferenças entre elas são o galho na parte superior e uma pessoa no canto esquerdo.

A cegueira à mudança é intrigante pois nos faz pensar quantas coisas não são notadas, e isso é extremamente importante nos campos da aviação e nas ações militares, por exemplo, quando o espaço de 2 km entre os aviões é considerado extremamente pequeno pela velocidade que as aeronaves podem atingir, exigindo um grande esforço atencional dos controladores de vôo para que não haja colisões durante as rotas no espaço aéreo.

Quando fazemos duas atividades ao mesmo tempo, como comer e assistir um seriado, usamos nossa atenção dividida, o que impede que prestemos a atenção adequada no que ingerimos, levando a uma possível sensação de insaciedade, um problema para as sociedades modernas com alta taxa de pessoas com sobrepeso. Esse tipo de atenção é muito importante, mas extremamente limitada. Quando estamos dirigindo, por exemplo, é preciso prestar atenção na direção do veículo, na sinalização do trânsito, nos outros carros, nosso cérebro está tentando prever a todo momento o que pode acontecer ao nosso redor… Adicione então enviar uma mensagem enquanto dirige. É estimado que somente 3 segundos de desatenção seja suficiente para um acidente acontecer. Superestimamos muito nossa atenção, por isso as campanhas de não usar o celular ao volante se tornam tão importantes.

Pensar que nossa atenção é limitada levanta algumas questões, como se é possível estudar e ouvir música. Geralmente, quando dois estímulos exigem processamentos de sistemas distintos do cérebro e que não conversam tanto entre si (neste caso, um exige processamento visual, e o outro, auditivo) não temos muito problema em alocar a atenção de forma dividida. Já assistir a um filme e ler seria mais complicado (senão impossível) pois ambos exigem processamento de ambos os sistemas visual e de processamento de linguagem, no mínimo.

A atenção serve para tomarmos consciência das coisas, sejam elas noções de dor, perigo iminente ou aprender novas habilidades. Mas o que é consciência?

Talvez um dos grandes mistérios da Neurociência é saber definir consciência. Consciência é a capacidade de quem é consciente. Mas quem então é consciente? É possível traçar essa linha entre seres sencientes (que são conscientes) e aqueles que não são?

É comum dizer que plantas e minerais não “pensam”.  Alguns critérios utilizados para fazer essa categorização são a capacidade de utilizar a linguagem e o fato de possuir inteligência. Aí que fica difícil. Comunicação e linguagem são coisas diferentes. Para uma forma de comunicação ser considerada uma linguagem é preciso cumprir uma série de critérios que limitam o que pode-se chamar de “língua”. Nesse cenário, a comunicação das abelhas e das formigas não é considerada uma linguagem para os linguistas cognitivos.

E quanto à inteligência, já é complicado definir para seres humanos, quanto mais para outros seres que não podem passar por testes como o do QI. Um caso bastante famoso é o do papagaio Alex, que conseguia se comunicar com um vocabulário de mais de 100 palavras, além de possuir noções de matemática parecidas com a dos primatas superiores. Como definir a inteligência dele?

Assunto muito polêmico em que o consenso é: não há consenso! O tratamento dado aos animais durante as pesquisas é diferente daquele dado aos seres humanos, mas são respeitados direitos que consideraríamos importantes como não submetê-los a situações de tortura ou sofrimento desnecessário. Em geral, as pesquisas que reportam que os animais são conscientes especulam que eles tenham uma diferença em grau e não em tipo de consciência se comparados aos humanos, o que nos remete então a como se deu a evolução dessa habilidade de nossos ancestrais em comum até nós…

Este assunto fica para uma próxima!

Se você curtiu o tema não deixe de ouvir o episódio 7 do Neurocast: Atenção e Consciência!

Acesse: bit.ly/neurocast_bep7

Fontes:

Fonte da imagem destacada: By Globe_and_high_court.jpg: created by jjronGlobe_and_high_court_fix.jpg: created by jjron, edited by Fir0002derivative work: WikiCantona [GFDL or CC-BY-SA-3.0], via Wikimedia Commons

Drew T, Vo MLH, Wolfe JM. “The invisible gorilla strikes again: Sustained inattentional blindness in expert observers.” Psychological science. 2013;24(9):1848-1853. doi:10.1177/0956797613479386.

Gaspelin, N., Ruthruff, E. & Pashler, Divided attention: An undesirable difficulty in memory retention. H. Mem Cogn (2013) 41: 978. doi.org/10.3758/s13421-013-0326-5

Irene M. Pepperberg, I. M., Cognitive and Communicative Abilities of Grey Parrots, Current Directions in Psychological Science. Vol 11, Issue 3, pp. 83 – 87, 2002

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