(Português do Brasil) É possível encontrar poeira do Saara nas Américas? (V.4, N.9, P.4, 2021)

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#acessibilidade Imagem tirada pelo satélite CALIPSO em que é possível identificar a corrente que carrega a poeira saindo do Saara e atingindo as Américas.

Se você gosta de assistir documentários, provavelmente já ouviu falar que a floresta Amazônica é fertilizada pela poeira que vem do Saara. Na realidade, essa é apenas parte da história! A corrente de ar que carrega essa poeira exerce forte influência nos processos atmosféricos do planeta. Além disso, é capaz de atingir outras regiões das Américas, prejudicando o ar do Mar do Caribe e do sul dos Estados Unidos.

Em 2006 a NASA e a CNES (Centre National d’Études Spatiales, agência espacial francesa) fizeram um estudo bastante importante para a compreensão dessa corrente de ar, lançando o satélite CALIPSO. A missão era compreender o papel das nuvens e das partículas aéreas, chamadas aerossóis atmosféricos, na regulação do tempo, do clima e da qualidade do ar na Terra. Entre 2007 e 2013 o satélite capturou cerca de 182 milhões de toneladas por ano de poeira saindo do Saara e vindo em direção às Américas.

Esses ventos têm origem no Lago Chade, localizado na depressão de Bodélé, fronteira entre Nigéria, Níger, Chade e Camarões. Há mil anos atrás ele tinha uma extensão superior ao tamanho do México, com aproximadamente 2.000.000 km² e era o maior lago do continente africano. No começo dos anos 60 o ainda gigantesco lago possuía um espelho d’água de 25.000 km² e na época era o sexto maior lago do mundo, mas atualmente se resume a menos de 1.300 km². Isso significa que em apenas 4 décadas o lago perdeu 90% de sua água.

lago chade - (Português do Brasil) É possível encontrar poeira do Saara nas Américas? (V.4, N.9, P.4, 2021)

#acessibilidade Imagens de satélite da depressão de Bodélé. A imagem à esquerda foi tirada em 1972, quando o Lago Chade ainda possuía uma grande extensão. Em contraste, a imagem da direita foi tirada em 2018, quando já havia perdido boa parte de seu espelho d’água.

A depressão de Bodélé, que era em si o Lago Chade, se trata atualmente de um depósito de adubo natural, e, como tal, esgotável. Seu solo é composto por diatomitos, uma rocha sedimentar formada pela deposição de restos de microorganismos, o que confere às formações rochosas uma composição rica em ferro e, sobretudo, fósforo.

Mas afinal de contas, por que o fósforo é tão importante? Ele possui papel fundamental na fisiologia das plantas. É absorvido do solo e utilizado na produção de uma molécula altamente energética, o ATP (trifosfato de adenosina). Esse composto é a principal fonte de energia para fotossíntese, divisão celular, transporte de nutrientes e carga genética da planta. Das 182 milhões de toneladas de poeira, rica em fósforo, que saem do Saara, cerca de 27,7 milhões de toneladas chegam ao solo da Floresta Amazônica.

Esse evento é essencial para a Floresta Amazônica. Sempre a vemos como uma floresta exuberante, com imensa diversidade de vegetação e árvores atingindo alturas gigantescas, mas há uma coisa que não nos damos conta: seu solo é extremamente pobre em nutrientes! Devido aos rios, às constantes chuvas e às altas temperaturas, o solo tem seus nutrientes drenados, resultando em um solo pouco fértil e ácido. Em compensação, tanto os ventos do Saara quanto a serapilheira são importantíssimos na substituição desses nutrientes.

A serapilheira é uma camada de material orgânico ou em decomposição que fica presente na superfície do solo da floresta, sendo composto por folhas, galhos, frutos e outros materiais. Essa camada atua na disposição de fósforo no solo e, apesar disso, não é suficiente para atender à demanda da vegetação. Assim, a poeira do Saara é responsável por repor e suprir a demanda de fósforo da floresta.

Como dito anteriormente, não é apenas a Floresta Amazônica que é influenciada por essa corrente. Ela também é capaz de influenciar a ecologia marinha e pode representar uma ameaça para os corais. Além de levar nutrientes, os ventos podem carregar fungos que atacam corais e cobre que é tóxico para certos microrganismos que têm papel importante na sobrevivência dos mesmos.

Além disso, a corrente de ar que vem do Saara é capaz de mudar o sistema de furacões. A poeira atmosférica reflete a luz solar, impedindo o aquecimento do oceano, o que faz com que ele sofra uma redução na sua temperatura. Isso altera a forma na qual a evaporação da água ocorre, fator fundamental para a formação de furacões.

Em junho de 2020 foi registrada uma nuvem anormal de poeira do Saara encobrindo o Caribe. Isso aconteceu porque houve uma alteração no regime de tempestades na África, influenciando a quantidade de poeira levantada na atmosfera do deserto. Simultaneamente, a corrente de ar que leva a poeira para o oeste estava mais fraca que o normal para a época. Essa união de fatores resultou em uma grande quantidade de poeira acumulada na costa oeste da África, e, quando os ventos voltaram a ganhar velocidade, atingiram o Caribe com uma densa atmosfera de aerossóis.

poeira caribe - (Português do Brasil) É possível encontrar poeira do Saara nas Américas? (V.4, N.9, P.4, 2021)

#acessibilidade Fotografia da nuvem de poeira no Caribe.

A depressão de Bodélé exerce não apenas forte influência nas condições atmosféricas da Terra, mas também nas condições sociais da população que vive no seu entorno. O povo dessa região depende das águas para agricultura e, junto desta crise é somada a violência do grupo islâmico radical Boko Haram. Ataques violentos desse grupo levaram a uma onda de deslocamento que movimentou, até 2016, mais de 2,7 milhões de pessoas. A crise humanitária é crescente na região do Lago Chade e até 2015 pelo menos 1.300 pessoas foram mortas. São necessárias, portanto, medidas ambientais para que o lago pare de diminuir e medidas sociopolíticas para mitigar a fome e a pobreza da região. É possível fazer uma doação e auxiliar as vítimas da guerra na região do Lago Chade clicando aqui.

Fontes:

Fonte da imagem destacada: NASA’s Goddard Space Flight Center, 2015.

Fonte da imagem 1: USGS

Fonte da imagem 2: Alexander James para a Reuters

Observações realizadas pela Nasa: https://www.nasa.gov/content/goddard/nasa-satellite-reveals-how-much-saharan-dust-feeds-amazon-s-plants

Análise dos dados obtidos por CALIPSO: https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/2015GL063040

Crise no Lago Chade e na Nigéria: https://www.icrc.org/pt/onde-o-cicv-atua/africa/regiao-lago-chade

Depressão de Bodélé: https://iopscience.iop.org/article/10.1088/1748-9326/1/1/014005/pdf

Para saber mais:

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-43360970

https://www.bbc.com/portuguese/geral-46927856

https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/por-que-uma-nuvem-de-poeira-do-saara-esta-encobrindo-praias-do-caribe/

Vídeo Poeira do Saara na Amazônia? – Terra Negra 16 do canal BláBlálogia no YouTube

http://revista.domhelder.edu.br/index.php/congressodireitoambiental/article/view/1378

http://www.cprm.gov.br/publique/CPRM-Divulga/Canal-Escola/Os-Muitos-Usos-do-Diatomito-1296.html

https://revistapesquisa.fapesp.br/transplante-de-microrganismos-reduz-morte-de-corais/

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