Quando você corre quase tão rápido quanto a luz: o uso de analogias e metáforas (V.4, N.5, P.2, 2021)

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Tempo de leitura: 4 minutos
#acessibilidade Oito corredoras, cada uma em uma raia olímpica. Sete delas nas marcas de largada e uma mais a frente, já correndo.

Você respira fundo. Está na posição, pronto para correr assim que o sinal tocar. Estádio cheio, todos esperando para ver você correr o mais rápido que puder e entregar o bastão para o próximo da sua equipe. O sinal parece soar. Não, precisa ser mais forte… ele soa. Você dispara em direção ao seu parceiro. Os gritos dos torcedores parecem renovar suas forças a cada momento. A única coisa que passa pela sua cabeça é passar o bastão o mais rápido possível. Você chega ao seu parceiro, o estádio se anima enquanto você entrega o bastão para ele, que corre em direção ao próximo da equipe. Você olha o marcador de tempo e sua corrida demorou menos de um milisegundo. Parabéns neurônio… espera. Achou que a história era sobre uma corrida de revezamento?

labxchange - Quando você corre quase tão rápido quanto a luz: o uso de analogias e metáforas (V.4, N.5, P.2, 2021)

Neurônios não correm, mas o modo como eles se comunicam é similar. O que ocorre é que eles recebem estímulos elétricos vindos de outros neurônios (sinal). Quando esses estímulos são fortes o bastante eles produzem uma nova corrente, um processo que chamamos de potencial de ação. Essa corrente segue até o final do neurônio, o terminal axonal, onde permite que algumas moléculas, os neurotransmissores (nossos bastões), sejam passados para um outro neurônio, criando um novo estímulo elétrico. Esse “passar o bastão” é chamado de sinapse.

Agora, imagina te explicarem que “impulsos elétricos suficientes para ultrapassar o limiar de excitação, geram correntes que se propagam pelo neurônio e permitem a liberação de neurotransmissores na fenda sináptica”. Difícil? Bem, foi disso que falamos até agora, mas não foi mais fácil entender quando comparamos com uma corrida? Essa comparação é o que chamamos de analogia.

saca rolhas - Quando você corre quase tão rápido quanto a luz: o uso de analogias e metáforas (V.4, N.5, P.2, 2021)

As aulas de ciência, em especial, têm usado diversas analogias para facilitar seu entendimento. Por exemplo, nas aulas de biologia você pode ter aprendido a relacionar os glóbulos brancos, que fazem parte do nosso sistema imunológico, a soldados, pois ambos combatem invasores, apesar das batalhas em trincheiras serem razoavelmente diferentes das em nossas veias e artérias. Na física, usamos a regra do saca rolha para saber o sentido de um campo magnético produzido por uma corrente, ou a analogia do gato dentro da caixa, para a física quântica, enquanto um aluno de química pode pensar que uma molécula tem medo da água para lembrar que é hidrofóbica.

Todas são estratégias que nos permitem entender conceitos complexos a partir de situações que já conhecemos bem e são utilizadas por muitos educadores e estudantes. E com razão. Um estudo de 1983 feito com grupos que precisavam solucionar um problema complicado (o tratamento de um tumor em um paciente que não podia passar por cirurgia ou tratamento com radiação intensa) mostrou que quando apresentadas analogias sem qualquer ligação com saúde, mas que pareciam com o problema, os participantes conseguiam solucioná-lo facilmente.

Há ainda uma figura de linguagem com uso similar ao das analogias: a metáfora. Experimentos de 2012 e 2019 mostraram que quando escutamos uma metáfora, por exemplo ”você é tão doce”, as áreas cerebrais relacionadas ao significado das palavras são ativadas. No caso, “doce” ativaria as áreas envolvidas com o paladar.

Vemos que o uso de analogias e metáforas tem relação com nossas sensações, revelando que as nossas experiências prévias nos ajudam constantemente a entender e solucionar problemas totalmente novos. Imaginamos, então, que quanto maior a diversidade de experiências, maior o número de pontos de vista que podemos ter sobre um mesmo problema. De fato, os conhecimentos são conectados entre si e usar essas conexões, de modo interdisciplinar, contribui para construirmos outros conhecimentos, formar novas conexões e estimular mais e mais nossos neurônios.

Fontes:

Fonte da imagem destacada: Imagem de Free-Photos por Pixabay

Fonte da imagem 1: LabXchange

Fonte da imagem 2: Imagem de Free-Photos por Pixabay

Gick, M. L., & Holyoak, K. J. (1983). Schema induction and analogical transfer. Cognitive Psychology, 15(1), 1–38. https://doi.org/10.1016/0010-0285(83)90002-6

Lacey S, Stilla R, Sathian K. Metaphorically feeling: comprehending textural metaphors activates somatosensory cortex. Brain Lang. 2012 Mar;120(3):416-21. doi: 10.1016/j.bandl.2011.12.016. Epub 2012 Feb 2. PMID: 22305051; PMCID: PMC3318916.
Disponível em: METAPHORICALLY FEELING: COMPREHENDING TEXTURAL METAPHORS ACTIVATES SOMATOSENSORY CORTEX (nih.gov)

Lai, Vicky Tzuyin & Howerton, Olivia & Desai, Rutvik. (2019). Concrete processing of action metaphors: Evidence from ERP. Brain Research. 1714. 10.1016/j.brainres.2019.03.005.

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