A importância da ciência básica e do investimento em ciência (V.2, N.9, P.3, 2019)

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Tempo de leitura: 6 minutos
#acessibilidade Desenho de uma árvore cujo solo em que está, o tronco e os principais galhos são marrons, galhos menores e folhas são verdes e frutos são vermelhos. Na imagem também há escrito “Basic Sciense” (ciência básica) em marrom, “Applied Science” (ciência aplicada) em verde e “Application” (aplicação) em vermelho, com setas apontando para as partes da árvore com as cores correspondentes.

Não é de hoje o desprezo de certa parte da população (em especial por parte de figuras políticas) pela ciência de base. Vista como um desperdício de tempo e dinheiro, já tivemos até mesmo grandes figuras do poder executivo criticando o uso de recursos com pesquisas “sem utilidade prática”. Enquanto a ciência aplicada busca criar produtos, gerar patentes, novas tecnologias, a ciência básica procura entender alguma coisa, gerar conhecimento. Apesar de terem objetivos aparentemente divergentes, as duas estão intrinsecamente ligadas.

pesquisa básica - A importância da ciência básica e do investimento em ciência (V.2, N.9, P.3, 2019)

#acessibilidade Tirinha que mostra quatro homens das cavernas conversando. Os dois à esquerda aparecem um com duas ferramentas na mão, um martelo e o que parece ser um punção, e o outro segurando uma pedra esculpida em formato circular e com um buraco no meio apoiada em outra pedra. No chão próximo há outras quatro parecidas, porém menores. Em uma pedra atrás deles há o que parece ser o desenho de uma roda com cotas do diâmetro interno e externo. À direita estão outros dois homens das cavernas indagando os primeiros “Para quê isso serve?”, ao que eles respondem “Ainda não sabemos. Fazemos pesquisa básica…” e são logo interrompidos “Que bonito! A gente se matando carregando pedras e arrastando animais selvagens, e os senhores se divertindo fazendo coisas que não servem para nada!”. No canto inferior direito há a assinatura do criador da imagem, trofek, e o ano, 2011.

Que benefícios para a sociedade poderia trazer o estudo de insetos? Bem, o veneno de uma vespa brasileira possui um peptídeo que consegue matar células cancerígenas e bactérias sem danificar as células saudáveis. A pesquisa foi feita por uma pesquisadora da UNESP de São José do Rio Preto e no futuro pode auxiliar no tratamento de diversos tipos de câncer e salvar vidas, mas como isso seria possível sem que alguém tivesse estudado a tal vespa?

investimento em entomologia - A importância da ciência básica e do investimento em ciência (V.2, N.9, P.3, 2019)

#acessibilidade Imagem feita pela página Observações Naturalistas no Facebook. Em cima há escrito em destaque “Investir em Entologia”, então “senso comum:” seguido de um print screen de um post de Facebook de uma pessoa com nome e foto censuradas para preservar anonimato. O post diz: “Um monte de gente doente morrendo nos hospitais enquanto o governo gasta dinheiro com “cientista” no mato, catanto bicho kkkk Cura do câncer que é bom nada ! ! Tem mais é que cortar essas verbas mesmo!!”. Logo abaixo a palavra “realidade” em destaque, seguida do print screen de uma matéria em um portal de notícias com a manchete “Veneno de vespa brasileira pode ajudar no tratamento contra o câncer” e os logos de quatro grandes portais de notícias que divulgaram essa pesquisa: G1, The Guardian, El País e BBC.

Lembra-se do surto de Zika que atingiu o Brasil há algum tempo? A pesquisadora brasileira Dra. Celina Turchi da Fiocruz – PE liderou a equipe que descobriu a relação entre casos de microcefalia em recém-nascidos e o vírus Zika, possibilitando que campanhas de proteção às mulheres grávidas fossem feitas em todo o país. Havia a possibilidade de usar o vírus Zika para reduzir tumores cerebrais (glioblastoma), no entanto a pesquisadora Gabriella Pinheiro, que havia ficado em 1º lugar na seleção do doutorado na UFRJ, teve sua bolsa suspensa. Esse é apenas um caso que ganhou notoriedade. Como ele, devem existir muitos outros.

Cientistas australianos queriam estudar como era a estrutura do vírus Influenza usando cristalografia de raios X quando descobriram uma proteína chamada Neuraminidase presente no vírus, o que possibilitou a criação de uma molécula chamada Zanamivir que se liga nessa proteína e inibe o vírus. Atualmente o medicamento Relenza, cuja substância ativa é o Zanamivir, é um dos mais indicados para o tratamento e prevenção de alguns tipos de gripe, como a H1N1 (gripe suína).

Sabe o velcro que tem em algumas roupas? Bom, enquanto caminhava pelos Alpes, um engenheiro suíço chamado Georges de Mestral percebeu que algumas plantas do gênero Arctium grudavam em sua roupa e no pelo de seu cachorro. Depois de examiná-las no microscópio percebeu que possuíam pequenos ganchos, que anos mais tarde resultariam na invenção do velcro (que na verdade é o nome da empresa, mas nos acostumamos a chamar o produto assim).

Alexander Fleming estudava uma bactéria até que um dia, exausto, resolveu tirar umas férias. Ao voltar, percebeu que havia deixado o recipiente com uma cultura de bactérias destampado e que mofo havia contaminado a amostra. Acontece que onde havia bolor, a bactéria não estava em atividade. Assim foi descoberto o primeiro antibiótico: a penicilina, nome vindo do fungo Penicillium.

Na década de 20, gado do norte dos EUA e do Canadá estava morrendo de hemorragia. Após análises da alimentação destes animais foi descoberta a varfarina, substância anticoagulante usada na prevenção de trombose. Outros medicamentos anticoagulantes foram criados com base na hirudina, substância encontrada na saliva de sanguessugas.

O captopril, fármaco usado no tratamento de hipertensão, foi criado por um brasileiro a partir de um estudo do veneno da jararaca. Da mesma forma, estudos de um lagarto conhecido como monstro-de-gila possibilitaram a descoberta de uma substância em sua saliva e consequente produção de sua forma sintética chamada exenatida que auxilia no controle dos níveis de açúcar no sangue em casos de diabetes do tipo 2.

O paclitaxel, medicamento usado no tratamento de cânceres de ovário, mama, bexiga, próstata, dentre outros, foi descoberto a partir de estudos do Teixo do Pacífico, árvore comum em partes da América do Norte. Já a doxorrubicina, também usada no tratamento de vários tipos de câncer, foi descoberta através de estudos de micróbios no solo.

Quando a Teoria da Relatividade foi proposta, quem imaginaria que ela possibilitaria a criação do GPS? Quando as equações de Maxwell foram descritas, será que alguém já havia sequer sonhado com a televisão e o rádio? Quando a estrutura do DNA foi descoberta, quem poderia imaginar que um dia seria possível editar genes? O descobridor do DNA estava originalmente estudando células presentes no pus de feridos e curativos em um hospital de sua cidade. Quando Euclides pensou pela primeira vez em números primos, não teria como saber a importância destes na criptografia atual. Quem iria imaginar que pele de tilápia auxiliaria na cura de queimaduras e em outros procedimento médicos?

A pesquisa básica produz conhecimento organizado que pode desencadear novas descobertas, mesmo que a princípio possam parecer “inúteis”. Pense nela como o tronco de uma árvore. Conforme a pesquisa avança, esse tronco vai crescendo, criando galhos, folhas e frutos. Não há como ter certeza de quais frutos virão dessa ou daquela árvore ou mesmo se elas darão frutos, mas com certeza nenhum fruto será gerado se não houver uma base. Quando você impede essas árvores de crescerem ou as derruba ou põe fogo nelas… 

Bom, espero não ver isso acontecer.

Fontes:

Fonte da imagem destacada: pro-test-deutschland

Fonte da imagem 1: créditos na imagem.

Fonte da imagem 2: página Observações Naturalistas no Facebook 

https://carlosorsi.blogspot.com/2017/03/science-sem-investimento-publico-sem.html

https://repositorio.unesp.br/handle/11449/127560

http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2015/09/veneno-de-vespa-brasileira-pode-ajudar-no-tratamento-contra-o-cancer.html

https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD008965.pub4/abstract

https://en.wikipedia.org/wiki/Zanamivir

http://content.time.com/time/nation/article/0,8599,1996883,00.html

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1676-24442009000500001

https://en.wikipedia.org/wiki/Warfarin

https://en.wikipedia.org/wiki/Hirudin

https://pt.wikipedia.org/wiki/Captopril

https://www.sciencedaily.com/releases/2007/07/070709175815.htm

https://en.wikipedia.org/wiki/Paclitaxel

https://en.wikipedia.org/wiki/Doxorubicin

https://www.unifesp.br/noticias-anteriores/item/3285-celina-turchi-aborda-em-palestra-descoberta-sobre-relacao-entre-zika-virus-e-microcefalia

https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/09/05/virus-da-zika-pode-causar-complicacoes-neurologicas-em-adultos-diz-estudo-da-ufrj.ghtml

https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,pesquisadora-ficou-em-1-lugar-na-selecao-do-doutorado-na-ufrj-e-descobriu-agora-que-esta-sem-bolsa,70002995671

https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/fisica/o-que-sao-ondas-eletromagneticas.htm

http://g1.globo.com/platb/espiral/2008/08/29/a-primeira-descoberta-do-dna/

https://revistapesquisa.fapesp.br/2019/06/07/na-pele-da-tilapia/

Para saber mais: 

What is basic research

https://www.nexojornal.com.br/profissoes/2019/09/12/Se-voc%C3%AA-parar-de-fazer-ci%C3%AAncia-pura-n%C3%A3o-consegue-mais-fazer-ci%C3%AAncia-aplicada

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/suzanaherculanohouzel/2019/05/sr-ministro-so-ha-desenvolvimento-tecnologico-com-pesquisa-basica.shtml

https://www.unifesp.br/edicoes-anteriores-entreteses/item/2269-o-dilema-da-ciencia-basica

Outros divulgadores:

Série de imagens do professor Hugo Fernandes sobre o Zika

Perfil do professor Wagner Ricardo da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e sua página, ambos no Facebook

Vídeo Pesquisas inúteis pagas com o seu dinheiro no canal do Pirula no YouTube

Vídeo Why Basic Research is Important com o professor Eric Lander, originalmente do canal Numberphile2, legendado em português

Vídeo A importância de se investir em Pesquisa Básica do canal Olá, Ciência! no YouTube

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