(Português do Brasil) Cipó-milome: pode fazer mal à saúde humana, mas trazer proteção a outros animais (V.6, N.11, P.2, 2023)

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#acessibilidade: Imagem de uma estrutura folhosa, verde, a pseudoestípula, que se encontra presa à base da folha propriamente dita. Fotografia de Joelcio Freitas.

Texto escrito pelos colaboladores  Elton John de Lírio da Universidade de São Paulo &  Joelcio Freitas do Instituto Nacional da Mata

Você é daqueles que curte tomar um chazinho? Ou que usa com frequência plantas medicinais ou fitoterápicos? Em muitos casos esses chás de fato auxiliam no tratamento de algumas condições de saúde. Mas cuidado, não é por que é natural que não faz mal!

Os cipós-milome, também conhecidas como papo-de-peru, cipó-mil-homens ou jarrinho, são plantas do gênero Aristolochia (família Aristolochiaceae), um grupo de plantas com aproximadamente 550 espécies no mundo, 83 delas ocorrentes no Brasil. No Brasil, são principalmente trepadeiras e apresentam um tipo de caule chamado suberoso, que apresenta uma camada que lembra a cortiça e  que fica cada vez mais evidente à medida que a planta se desenvolve. Em algumas espécies, as folhas são diferentes, subentendidas por pseudoestípulas (Fig. 1), o que ajuda no  reconhecimento da planta na ausência de flores.

pseudoestipula estrutura folhosa - (Português do Brasil) Cipó-milome: pode fazer mal à saúde humana, mas trazer proteção a outros animais (V.6, N.11, P.2, 2023)

Figura 1. Pseudoestípula de Aristolochia elegans Mast. Foto: Joelcio Freitas.

#acessibilidade: Imagem de uma estrutura folhosa, verde, a pseudoestípula, que se encontra presa à base da folha propriamente dita.

Suas folhas são de formatos variados, sendo o mais comum o cordiforme (formato de coração), com nervuras bem evidentes partindo da base. As flores (Fig. 2) possuem formatos e tamanhos variados, podendo ter desde 2 cm até 50 cm de comprimento. Ao invés de “pétalas” e “sépalas”, estruturas que vemos na maioria das flores, as espécies de cipó-milome só possuem sépalas, que formam toda a estrutura da flor. A parte final, mais ornamentada e com cores chamativas, recebe o nome de limbo, ou quando é dividida em duas partes, são chamadas de lábio superior e inferior, que a depender da espécie pode ser mais ou menos desenvolvido.

Espécies de cipó-milome têm sido utilizadas na medicina popular e em fitoterápicos por diversos povos ao redor do mundo, com destaque para a China e o Brasil. O nome do gênero, Aristolochia, vem do grego aristos = melhor; lochios = parto, esse nome é devido ao uso popular do chá dessa planta auxiliar na dilatação pélvica em mulheres grávidas. A planta também tem sido utilizada com cunho religioso. O uso religioso se dá por meio da infusão de partes da planta em aguardente, e a bebida é oferecida em bares ou por erveiros, em geral gratuitamente, no dia de “sexta-feira da paixão”. No entanto, uma particularidade das espécies desse gênero é a presença de ácidos aristolóquicos, sobretudo nas folhas, caule e raízes. Por este motivo, a ingestão de partes de cipó-milome não é recomendada, uma vez que esses ácidos já foram associados a problemas renais, mutações genéticas e até mesmo tumores. O consumo dessa planta não é, inclusive, recomendado pela Organização Mundial da Saúde.

flor da especie aristolochia gracilipenduculata - (Português do Brasil) Cipó-milome: pode fazer mal à saúde humana, mas trazer proteção a outros animais (V.6, N.11, P.2, 2023)

Figura 2. Flor de Aristolochia gracilipedunculata F.González.

#acessibilidade: Imagem de uma flor da espécie Aristolochia gracilipenduculata, a flor apresenta uma estrutura oca na base, de cor branco com máculas roxas, e no ápice apresenta projeções roxas de tamanhos variados. Fotografia de Joelcio Freitas.

O que faz mal para um organismo, no entanto, pode ser recurso importante para outro. A presença desses ácidos aristolóquicos não é prejudicial a um grupo específico de lagartas de borboletas. Para lagartas da tribo Troidini (Lepidoptera: Papilionidae), a presença desses ácidos não afeta sua alimentação, que inclui  folhas e flores dos cipós-milome (Fig. 3). As lagartas de Troidini são conhecidas por utilizar exclusivamente essas plantas em sua dieta, pois sequestram os ácidos presentes nas plantas e os eliminam em suas fezes. As lagartas, assim, se beneficiam dessa toxicidade, pois a ingestão dos ácidos as tornam desagradáveis a aves predadoras, por exemplo. 

O caso dos cipós milome mostra-nos a importância de ter muita cautela na ingestão de plantas. É muito comum as pessoas pensarem que, diferentemente dos fármacos, os fitoterápicos não causam efeitos colaterais. Isso não é uma realidade, assim como pode ser observado no uso dos cipós-milome, diversos outros fitoterápicos podem causar efeitos colaterais, e por este motivo, só devem ser consumidos quando prescritos por um profissional da área de saúde.

lagarta de battus polydamas polydamas - (Português do Brasil) Cipó-milome: pode fazer mal à saúde humana, mas trazer proteção a outros animais (V.6, N.11, P.2, 2023)

Figura 3. Lagarta de Battus polydamas polydamas (Linnaeus, 1758) (Lepidoptera:Troidini) se alimentando de Aristolochia hypoglauca Kuhlm. Foto: Joelcio Freitas.

#acessibilidade: Imagem de lagarta de cor branca com listras roxas e projeções que se parecem espinhos.

 

Fontes:

Capellari-Júnior, L. 2005. Potencial ornamental das aristoloquiáceas. Revista Brasileira de Horticultura Ornamental 11(2): 82-88.

Freitas, J. & Alves-Araújo, A. 2017. Flora do Espírito Santo: Aristolochiaceae. Rodriguésia 68(5): 1505-1539.

Freitas, J., Lírio, E. J., Barros, F. & González, F. 2020. Aristolochiaceae in Flora do Brasil 2020. Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Disponível em: https://floradobrasil2020.jbrj.gov.br/FB54.

Hoehne, F.C. 1942. Aristolochiaceas. Instituto de Botânica, São Paulo. Flora Brasílica, pp. 15: 1-141, t. 1-123.

IARC Working Group on the Evaluation of Carcinogenic Risks to Humans. World Health Organization. International Agency for Research on Cancer. 2002. Some Traditional Herbal Medicines, Some Mycotoxins, Naphthalene and Styrene. World Health Organization; Lyon, France, pp. 1-556. 

Nishida, R. 2002. Sequestration of defensive substances from plants by Lepidoptera. Annual Review of Entomology, pp. 47: 57-92.

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