#acessibilidade: Imagem colorida divida ao meio ilustrando uma reflexão de imagens em uma superfície líquida. Parte de cima contendo silhuetas negras de três gatos caminhando. Parte de baixo contendo as mesmas silhuetas dos gatos refletidas preenchidas com imagens de ossos e flores.
Texto escrito pelo colaborador Jhonathan Rosa de Souza
Ao iniciar o estudo da física, particularmente a física das ondas e dos fenômenos oscilatórios, deparamo-nos rapidamente com o famoso princípio da superposição. Este princípio foi formalizado no estudo dos fenômenos ondulatórios nos séculos XVIII e XIX e demonstrado claramente em experimentos de interferência, como os famosos experimentos ópticos realizados por Thomas Young no início do século XIX. Como mostra a Figura 1, os experimentos de Young com a luz passando por duas fendas estreitas revelaram um padrão de franjas claras e escuras que só poderia ser explicado se as ondas fossem capazes de se somar ou se cancelar mutuamente.

Fonte: https://vestibulares.estrategia.com/public/questoes/esta-representado8649ed69cd/
Em termos simples, o princípio da superposição afirma que:
“Quando duas ou mais ondas ocupam a mesma região do espaço,
a onda resultante é a soma das ondas individuais.”
Em outras palavras, a resposta total de um sistema linear a múltiplas entradas é igual à soma das respostas produzidas por cada entrada individualmente. Essa ideia é muito natural na física ondulatória clássica. Por exemplo, quando duas ondas sonoras se propagam pelo ar, elas se combinam para produzir interferência construtiva ou destrutiva. Da mesma forma, quando duas ondas na água se encontram na superfície de um lago, suas alturas se somam em todos os pontos. Como mostrado na Figura 2, o fenômeno da interferência pode ocorrer de duas maneiras: construtiva em que amplitude aumenta, e destrutiva em que a amplitude resultado da soma das ondas é igual a zero.

Fonte: https://www.resumov.com.br/
No entanto, o princípio da superposição adquire um significado mais profundo e intrigante quando surge na mecânica quântica. Para ilustrar as estranhas implicações da superposição quântica, o físico Erwin Schrödinger propôs, em 1935, um famoso experimento mental conhecido como o gato de Schrödinger, ilustrado pela Figura 3. Nesse experimento mental, um gato é colocado dentro de uma caixa selada junto com um átomo radioativo, um detector e um mecanismo contendo veneno. Se o átomo decair, o detector aciona o mecanismo e libera o veneno, matando o gato. Se o átomo não decair, o gato permanece vivo. A mecânica quântica nos diz que, antes da observação, o átomo radioativo pode ser descrito como estando em uma superposição de estados “decaído” e “não decaído”. A descrição do sistema, portanto, corresponde a uma superposição de duas possibilidades: um gato vivo e um gato morto.

Fonte: https://es.wikipedia.org/wiki/Gato_de_Schr%C3%B6dinger
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|ψ⟩=a|vivo⟩+b|morto⟩ |
(1) |
Nessa representação matemática, a letra grega psi significa o sistema como um todo, e vivo e morto referem-se ao estado do gato. Os coeficientes |a|2 e |b|2 correspondem às probabilidades de cada um desses estados.
O ponto central do experimento mental é o seguinte: de acordo com a descrição quântica, não é possível conhecer o estado do gato antes de abrir a caixa. Somente quando a caixa é aberta, ou seja, quando uma medição é realizada, o sistema aparece em um estado definido, vivo ou morto. Isso leva à afirmação provocativa de que, antes da observação, o gato está em uma superposição de estados vivo e morto simultaneamente. Tal conclusão é extremamente contraintuitiva. Na experiência cotidiana, os sistemas físicos sempre parecem possuir propriedades definidas. Por isso, o princípio da superposição na mecânica quântica é às vezes interpretado erroneamente como mera reflexão da ignorância humana. De certa forma, se um estado próprio (puro) não pode ser acessado diretamente por técnicas experimentais ou pela teoria, isso implica que o conhecimento humano é, em certo sentido, insuficiente para investigar e compreender plenamente esse sistema.
De acordo com esse ponto de vista, o sistema já possuiria um estado definido, mas nossas técnicas experimentais ou descrições teóricas seriam simplesmente insuficientes para determiná-lo. No entanto, essa interpretação não captura completamente a natureza da superposição quântica. Em situações clássicas, como o lançamento de uma moeda, a incerteza reflete, de fato, uma falta de conhecimento. Enquanto a moeda gira no ar, podemos atribuir probabilidades aos resultados (cara ou coroa), mas a moeda sempre tem uma orientação definida a cada instante. Se tivéssemos informações completas sobre seu movimento, o resultado final poderia, em princípio, ser previsto.
A superposição quântica é fundamentalmente diferente. Experimentos envolvendo interferência, emaranhamento e a violação de desigualdades derivadas de pressupostos clássicos, como os associados a John Bell e conhecidos como teorema de Bell, mostram que os estados quânticos geralmente não podem ser interpretados como meros reflexos de conhecimento incompleto sobre variáveis clássicas subjacentes. Em vez disso, o princípio da superposição parece ser uma característica fundamental da descrição física da natureza. Em vez de representar a ignorância sobre uma realidade clássica oculta, o estado quântico codifica um conjunto de amplitudes de probabilidade cujas combinações produzem efeitos de interferência observáveis. Nesse sentido, a superposição quântica desafia nossa intuição clássica. Ela sugere que, em nível microscópico, a natureza nem sempre se comporta como se os sistemas possuíssem um único estado bem definido antes da medição. Compreender essa ideia e aprender a trabalhar com ela matematicamente é um dos passos conceituais centrais da física moderna e de tecnologias emergentes como a computação quântica.
Vamos analisar uma situação familiar para esclarecer esse ponto: o simples ato de lançar uma moeda, como mostrado na Figura 4.

Fonte: https://stock.adobe.com/es/search?k=coin%25252Btoss&asset_id=243913500
Quando uma moeda é lançada ao ar, ela gira rapidamente antes de cair, seja com a face “cara” ou “coroa” para cima. Enquanto a moeda ainda está no ar, costumamos dizer que o resultado é incerto. Do nosso ponto de vista, ambas as possibilidades parecem igualmente prováveis, e podemos atribuir probabilidades como:
P(cara) = 0.5 P(coroa) = 0.5
À primeira vista, essa situação pode parecer semelhante à ideia de superposição quântica. Afinal, antes da moeda cair, não podemos dizer qual resultado ocorrerá. Poderíamos, portanto, concluir que a moeda está de alguma forma em uma superposição de cara e coroa enquanto gira. No entanto, essa interpretação está errada. Na realidade, a moeda sempre possui um estado físico bem definido durante seu movimento. A cada instante, ela possui uma orientação, momento angular, posição e velocidade específicos. O fato de não podermos prever o resultado final simplesmente reflete a complexidade do movimento e nosso conhecimento limitado das condições iniciais exatas. Se conhecêssemos todos os parâmetros relevantes com precisão suficiente e se pudéssemos resolver as equações do movimento exatamente, o resultado final seria, em princípio, previsível. A incerteza no lançamento da moeda, portanto, reflete o que os físicos chamam de incerteza epistêmica: uma limitação em nosso conhecimento do sistema, e não uma propriedade intrínseca do próprio sistema.
A mecânica quântica descreve uma situação muito diferente. Em um sistema quântico de dois estados, como o gato de Schrödinger, o estado do sistema pode ser escrito como uma superposição de dois estados de base:
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|ψ⟩=a|0⟩+b|1⟩ |
(1) |
A diferença crucial reside no fato de que essa expressão não representa meramente a ignorância sobre o estado real do sistema. Em vez disso, descreve um estado quântico coerente no qual os resultados possíveis se combinam e podem produzir efeitos de interferência observáveis. Tais efeitos não possuem análogo clássico e não podem ser explicados simplesmente pela falta de informação. O lançamento de uma moeda, portanto, representa uma mistura clássica de possibilidades: a moeda já possui um estado definido, mesmo que não o conheçamos. Um sistema quântico em superposição, por outro lado, comporta-se como se múltiplas possibilidades coexistissem de maneira fundamentalmente diferente até que uma medição seja realizada, quando todos os estados possíveis colapsam no estado observado experimentalmente. Essa distinção entre incerteza clássica e superposição quântica é uma das principais mudanças conceituais necessárias para a compreensão da física moderna.
A comparação com o lançamento de uma moeda ajuda a esclarecer uma distinção conceitual essencial. No lançamento clássico de uma moeda, as probabilidades surgem do nosso conhecimento incompleto das muitas variáveis determinísticas que governam o movimento da moeda. O próprio sistema sempre possui um estado definido; nossa incerteza reflete apenas uma limitação em nossa capacidade de rastrear ou calcular sua evolução. A superposição quântica, no entanto, descreve algo fundamentalmente diferente. Um sistema quântico pode ocupar uma combinação coerente de estados possíveis, e essa propriedade leva a fenômenos observáveis, como interferência e efeitos de emaranhamento, que não podem ser reproduzidos simplesmente assumindo variáveis clássicas desconhecidas ou conhecimento incompleto. Por essa razão, o princípio da superposição geralmente não é interpretado como uma limitação da compreensão humana, mas sim como uma característica estrutural fundamental de como os estados quânticos descrevem a realidade física.
Fontes:
[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Princ%C3%ADpio_da_superposi%C3%A7%C3%A3o
[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Gato_de_Schr%C3%B6dinger
[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Probabilidade
Para saber mais:


