#acessibilidade: A imagem apresenta uma bola de futebol na posição de escanteio de um capo, coberto por grama verde e delimitado por linhas brancas.
Texto escrito pelo colaborador Giovanni Torres
O mês é de arraiá, mas vamos falar é de arraia. Ou seria raia? As duas formas podem ser utilizadas e indicam o mesmo animal, parentes próximos dos tubarões que apresentam corpo mais achatado, com nadadeiras amplas, que quase sempre vivem associadas ao fundo dos mares. Se você fizer uma busca na internet, pode até encontrar que raias são animais marinhos, mas você sabia que no coração da Amazônia, vivem as raias de água doce? E elas não estão de passagem, moram por ali há milhões de anos.
Esse texto conta um pouco da história das raias da família Potamotrygonidae, que, exceto por um gênero que ocorre em água salobra, é formada por raias de água doce conhecidas como raias-fogo. A jornada deste grupo está intimamente ligada à origem do Sistema Pebas, um cenário que começou a se desenhar há cerca de 23 milhões de anos, na transição entre o Oligoceno e o Mioceno, quando o nível do mar subiu e invadiu o norte da América do Sul. Essa água avançou pelo continente, espalhando-se pelas áreas de relevo mais baixo e criando um megassistema de áreas alagadas (Figura 1).

Imagine um cenário em que um sistema de áreas alagadas, parecido com o Pantanal que conhecemos hoje, cobria mais de um milhão de quilômetros quadrados (mais ou menos do tamanho do Egito). Esse ambiente era extremamente dinâmico, com períodos de seca e de cheias, que além das chuvas, acompanhavam também a variação do nível do mar, fazendo as águas alternarem entre salobras e doces. Para as raias ancestrais (que vieram do mar), o Sistema Pebas funcionou como um laboratório de testes evolutivo, em que só sobrevivia e deixava descendentes, aquelas raias que conseguiam viver em águas menos salgadas. Além das raias, o Sistema Pebas influenciou o surgimento e diversificação de vários outros grupos de organismos aquáticos, como moluscos, peixes, botos, tartarugas e os jacarés gigantes já extintos, Purussaurus brasiliensis.
Além de viver em água doce nesse sistema, a alimentação das raias também mudou. Uma das mudanças mais surpreendentes é a inclusão de insetos em sua dieta, algo que não ocorre em outras espécies. As mudanças em relação aos grupos marinhos foram tão profundas, que elas conseguem mastigar, permitindo que quebrem a resistência das carapaças de insetos aquáticos e diversifiquem seu cardápio. Nenhum outro peixe cartilaginoso mastiga, só mordem e engolem.
Por muito tempo, essas raias ficaram concentradas na região do Alto Amazonas. Mas quando a Cordilheira dos Andes surge e se eleva, passa a funcionar como uma gigantesca barreira de pedra, alterando o curso das águas e pondo fim ao Sistema Pebas (Figura 2).

Há cerca de 10 milhões de anos, nascia o rio Amazonas moderno. Diante dessa revolução na paisagem, as raias acabaram utilizando a nova rede de rios como caminhos naturais. Quando pensamos na origem e na área que ocupam hoje, a impressão é de uma bomba explodindo e jogando mais de 30 espécies (Figura 3) de raias do Alto Amazonas para o restante da América do Sul.

Fontes:
Hoorn C, Wesselingh FP, Ter Steege H, Bermudez MA, Mora A, Sevink J, Sanmartín I, Sanchez-Meseguer A, Anderson CL, Figueiredo JP, et al. 2010. Amazonia through time: Andean uplift, climate change, landscape evolution, and biodiversity. Science 330:927–31.
Fontenelle JP, Marques FP, Kolmann MA, Lovejoy NR. 2021. Biogeography of the neotropical freshwater stingrays (Myliobatiformes: Potamotrygoninae) reveals effects of continentscale paleogeographic change and drainage evolution. J Biogeogr 48:1406–19
Kolmann, M. A., Marques, F. P., Weaver, J. C., Dean, M. N., Fontenelle, J. P., & Lovejoy, N. R. 2022. Ecological and phenotypic diversification after a continental invasion in neotropical freshwater stingrays. Integrative and Comparative Biology, 62(2), 424-440.we
Kolmann MA, Welch KC, Summers AP, Lovejoy NR. 2016. Always chew your food:freshwater stingrays use mastication to process tough insect prey. Proc R Soc B 283:20161392.


