“Você, mulher!” Quem? Eu? (V.9, N.3, P.3, 2026)

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Tempo de leitura: 3 minutos
#acessibilidade Imagem abstrata com fundo com as cores do arco-íris, um útero com trompas e ovários como elemento central, envolvido por flores, no entorno, cromossomos espalhados isolados ou formando combinações XX e XXY e corpos humanos flutuando no fundo colorido, uma molécula de DNA com um bebê à direita.

Texto escrito pela colaboradora Vanessa Verdade

Hoje falo com você, MULHER. Calma. Com quem? Mulheres? Quem são? Onde habitam? 

Ainda na semana em que comemoramos o dia da Mulher, um dos assuntos que mais repercutiu foi a nomeação da Deputada Federal Erika Hilton do PSol para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados. Houve uma enxurrada de comentários dizendo, “desculpe, mas ela não é mulher. Com a biologia não se discute. Sinto muito.”

Sentimos muito mesmo, pela falta de informação e pelo preconceito que ainda integra grande parte de nossa sociedade e gera tanto sofrimento a pessoas que se veem cerceadas em seu direito mais básico: ser quem elas são. Terapia, por favor. Esse desejo de controle diz muito sobre nós mesmos.

Voltando à questão biológica, biologia não se discute? Se discute sim. Normalmente podemos identificar do ponto de vista biológico seres humanos como homens ou mulheres com base em diversas características, que podem ser parte da aparência, comportamento, morfologia interna, fisiologia e genética. A depender das características escolhidas, podem variar mais ou menos e podem depender da região e cultura. Uma vez encontrei uma amiga que estava com sua filhinha. A menina me perguntou – Você pinta a unha? Eu disse: Não. Ela: Você passa batom? Eu: Não. Olhando cuidadosamente para mim pergunta: Você é menina? A mãe fica sem graça. Para sua filhinha, a diferença entre gêneros estava no uso de esmalte e maquiagem. Nós, mães, somos levadas a categorizar rapidamente nossos bebês, desde o chá revelação, existem cores de meninas e cores de meninos e vai dar trabalho encontrar opções diferentes. 

Ora, cores não são parte da biologia. Órgãos reprodutores sim. Genética sim. Mulheres são XX e homens são XY. Sim, mas não somente. Mulheres XX e homens XY são somente os padrões genéticos mais comuns entre seres humanos e dos genes até a expressão gênica que será visível (fenótipo) existe um longo caminho. Uma pessoa XX com corpo masculino é mulher? E uma pessoa XY com corpo feminino? Pessoas assim existem. Existem inúmeras variações genéticas e no desenvolvimento do embrião humano que podem gerar padrões cromossômicos diferentes (por exemplo XXY ou X0) ou que não correspondem ao fenótipo esperado. Esses perfis cromossômicos diferentes não são anomalias, são variações mais raras. E sim, em muitos casos essas pessoas são capazes de reproduzir. Ou agora você também vai classificar quem tem problema de fertilidade como versões anômalas de seres humanos? 

A biologia que envolve o gênero biológico e a identidade de gênero (são coisas diferentes) também pode ser complexa e ainda vem sendo estudada. Além dos desencontros possíveis entre o padrão cromossômico e o padrão fenotípico, sabemos que órgãos reprodutores e cérebro se desenvolvem em momentos diferentes no embrião, um processo controlado essencialmente por hormônios. Alterações nos níveis hormonais ou na sensibilidade a esses hormônios pode resultar em um corpo feminino com um cérebro essencialmente masculino ou vice e versa. A identificação com o gênero diferente daquele que seu corpo demonstra pode ser biológica também. Ou seja, nem na biologia cabe a visão rasa de que mulheres são somente aquelas pessoas que têm útero ou cromossomos XX. 

O momento pede união e sororidade. Xises e Ypsilons, pessoas com e sem útero, lutando pelo direito à vida, contra grupos que de humanos, reúnem basicamente escrotos.

Fontes: 

Goldman, 2017. Two Minds. https://stanmed.stanford.edu/how-mens-and-womens-brains-are-different/

Kadam SJ, Leslie SW, Ford GA. Klinefelter Syndrome. [Updated 2025 May 5]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK482314/

Sharma L, Daley SF. Turner Syndrome. [Updated 2026 Feb 15]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK554621/

Síndrome  em que mulheres nascem sem útero, mas com ovários funcionais: https://www.yalemedicine.org/conditions/mayer-rokitansky-kuster-hauser-mrkh-syndrome

Para saber mais: 

@cienciafreestyle https://www.instagram.com/reel/DVw3JcaDSXS/?igsh=MTVobGtwZWd5dm82dQ==

Monteiro, L. F., & Nardi, H. C. (2009). Operaciones de género: la película XXY (2007) y la representación del cuerpo y el sexo como «naturales». Athenea Digital. Revista De Pensamiento E Investigación Social, (16), 35–46. https://doi.org/10.5565/rev/athenea.625

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