O que acontece no nosso cérebro quando aprendemos algo novo? (V.9, N.7, P.1, 2026)

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Tempo de leitura: 4 minutos
#acessibilidade: Uma ilustração simples de uma silhueta de cabeça humana aberta no topo. De dentro dela, saem voando vários ícones coloridos misturados: símbolos matemáticos (como X²), fórmulas químicas (H₂O), notas musicais, um coração, uma lâmpada acesa e letras. Representa a mente absorvendo diferentes tipos de conhecimento.

Texto escrito pela colaboradora Ana Carolina Murato Iavarone

A ideia de que o cérebro humano é um órgão estático, que apenas armazena informações como um arquivo de computador, foi superada há décadas pela neurociência. Hoje, entendemos o aprendizado como um processo de neuroplasticidade, ou seja, a capacidade intrínseca do sistema nervoso de modificar sua estrutura e função em resposta a experiências, estímulos e treinamentos. Quando você se esforça para compreender a lógica de um conteúdo que seu(sua) professor(a) passou, não está apenas “decorando” conceitos. Você está, literalmente, orientando uma reforma biológica em sua massa cinzenta.

Tudo começa na sinapse, o minúsculo espaço de comunicação entre dois neurônios. O modelo neurocientífico mais aceito para explicar como memórias são formadas é a Potencialização de Longa Duração (LTP). Descrita originalmente por Terje Lomo em 1966 e detalhada por Eric Kandel (Prêmio Nobel de Medicina em 2000), a LTP postula que a estimulação persistente de uma via neural aumenta a força da transmissão sináptica entre esses neurônios. No nível molecular, isso envolve a ativação de receptores específicos, como o NMDA e o AMPA. A ativação repetida desses receptores dispara uma cascata bioquímica que resulta na síntese de novas proteínas e até na expressão de genes que fortalecem aquela conexão específica. 

Pesquisas com a lesma do mar, Aplysia californica, demonstram que o aprendizado de longo prazo requer alterações na expressão gênica e o crescimento de novas terminações sinápticas. Ou seja: aprender muda o formato dos seus neurônios. Enquanto a sinapse é o ponto de contato, o axônio é o “fio” que transporta a informação. É aqui que entra um dos processos mais fascinantes do aprendizado motor e cognitivo: a mielinização.  A matéria branca do cérebro, composta majoritariamente por axônios revestidos de mielina, desempenha um papel ativo na inteligência e na velocidade de processamento. A mielina é uma bainha lipídica que isola o axônio, permitindo que o impulso elétrico viaje de forma saltatória e até 100 vezes mais rápida do que em fibras não mielinizadas. Quando você pratica exaustivamente uma função, células gliais chamadas oligodendrócitos detectam a atividade elétrica e depositam mais camadas de mielina naquele circuito específico. É a diferença entre uma conexão de internet discada e uma fibra óptica: a prática pavimenta a rodovia para que o pensamento flua com o mínimo de resistência energética.

Para além das rotas criadas e reforçadas com a prática e repetição durante o estudo, a consolidação da memória, acontece  quando o cérebro está “offline”, em um processo conhecido como consolidação sistêmica. Ou seja, estudar exaustivamente não reflete em bom desempenho. É preciso descanso entre períodos de estudo.

De acordo com a teoria da consolidação dual, as informações são inicialmente processadas no hipocampo (uma estrutura de armazenamento rápido, mas de capacidade limitada) e, durante o sono, são “replayed” ou ensaiadas para o neocórtex. Durante o sono de ondas lentas, o hipocampo transfere as representações de memória para o córtex cerebral, integrando-as ao seu repertório de conhecimentos pré-existentes. Sem o sono adequado, o hipocampo atinge sua saturação, impedindo a absorção de novos dados no dia seguinte. Além disso, a privação de sono impede a ação do sistema linfático, que “limpa” neurotoxinas acumuladas durante o dia, como a proteína beta-amiloide, essencial para manter a saúde sináptica. 

 O estresse crônico também prejudica o aprendizado: libera altos níveis de cortisol, que em excesso, torna-se neurotóxico. Cortisol elevado pode causar atrofia de dendritos no hipocampo e hipertrofiar a amígdala (o centro do medo), dificultando a recuperação de memórias sob pressão, o famoso “branco” na hora da prova. Portanto, a gestão do estresse e o descanso não são apenas questões de bem-estar, mas pré-requisitos fisiológicos para a plasticidade neural.

Entender que o aprendizado é um processo biológico dependente de tempo, repetição e manutenção fisiológica transforma a maneira como encaramos o estudo acadêmico. Cada nova habilidade adquirida é uma prova da resiliência e da maleabilidade do cérebro humano. Ao respeitar os ciclos de foco intenso e descanso profundo, você não está apenas estudando; você está otimizando a engenharia biológica mais complexa do universo conhecido. Em outras palavras, para se dar bem na prova, o melhor é trocar noites em claro por noites bem dormidas! Só não esquece de dar uma estudadinha, para repetir informação e não o ano!

Fontes:

Kandel, E. R. (2001). The Molecular Biology of Memory Storage: A Dialogue Between Genes and Synapses. Science.

Fields, R. D. (2015). Learning-Induced Myelination: A New Form of Plasticity. Nature Reviews Neuroscience.

Diekelmann, S., & Born, J. (2010). The memory function of sleep. Nature Reviews Neuroscience.

Zull, J. E. (2002). The Art of Changing the Brain: Enriching the Practice of Teaching by Exploring the Biology of Learning.

Sapolsky, R. M. (2004). Why Zebras Don’t Get Ulcers (sobre o impacto do cortisol e estresse no hipocampo).

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