#acessibilidade: Ilustração composta por uma forma circular sobreposta a um fundo branco, mostrando um cérebro humano visto de cima onde uma mão no canto inferior direito está tocando-o com o dedo indicador. O cérebro está envolto por dois anéis vermelhos com pequenas estrelas azuis e amarelas, e acima dele há três raios, um azul no centro e dois amarelos, um de cada lado.
Texto escrito pelo colaborador Pedro Rosin Gil
Será que estamos viciados em dopamina? Nos últimos anos, o termo “dopamine detox” (ou “jejum de dopamina”) tem ganhado a atenção de milhares de pessoas, especialmente com a ascensão da cultura do bem-estar, também conhecida como wellness, movimento social, estilo de vida e tendência nas redes sociais.
Com certeza você já deve ter visto alguém dizer que a solução para uma vida mais prazerosa, cheia de motivação e livre de comportamentos compulsivos é a diminuição dos níveis de dopamina no cérebro. Mas o que a maioria das pessoas não sabe é que esse neurotransmissor não é exatamente o culpado pelo nosso tempo de tela interminável, e a neurociência explica o porquê.
Para iniciar a discussão do assunto, precisamos primeiro compreender que a dopamina é um neurotransmissor produzido naturalmente pelo nosso cérebro para permitir a comunicação entre os neurônios (as sinapses). Sua biossíntese ocorre em duas etapas enzimaticamente catalisadas. O aminoácido tirosina, convertido em L-DOPA e na outra etapa, é convertido em dopamina.

Apesar da dopamina estar culturalmente associada à sensação de prazer e recompensa – uma ideia popularizada na década de 1950 após os experimentos dos neurocientistas James Olds e Peter Milner –, essas não são suas únicas respostas biológicas.
Na realidade, esse neurotransmissor é produzido em diferentes núcleos dopaminérgicos, que são regiões específicas do cérebro onde se concentram os neurônios produtores de dopamina, funcionando como “centros de controle”. A partir daí, a dopamina passa a atuar em diversas frentes essenciais: a mediação do controle motor, a consolidação de memórias, o processamento emocional e até na regulação da prolactina, o hormônio responsável pela lactação materna.
Por ser um neurotransmissor complexo e multifuncional, logo a dopamina caiu nos braços do sensacionalismo e virou alvo de interpretações errôneas na internet. O equívoco do jejum de dopamina (“dopamine fasting)” tem suas raízes por volta dos anos de 2018-2019 no Vale do Silício (EUA), quando a presença dos celulares e a enxurrada de notificações das redes sociais criaram um cenário de hiperestimulação digital constante que fez a busca pela regulação emocional se tornar cada vez maior. Foi aí que o psicólogo Cameron Sepah utilizou esse termo para descrever uma técnica de Terapia Cognitiva Comportamental à fim de ajudar as pessoas a se livrarem de comportamentos compulsivos.
Sepah chegou a confirmar que o nome não passava de uma tentativa de chamar a atenção do público e que não devia ser interpretado literalmente, porém, a simplificação extrema da idéia e a popularização desse conceito na cultura wellness criou a ilusão de que podemos diminuir ou aumentar os níveis de dopamina no cérebro como se fosse o volume da TV, o que, segundo a neurociência, não é possível, uma vez que esse neurotransmissor é produzido e regulado pelo cérebro em diversas regiões, ou seja, a dopamina não está concentrada em um lugar só e não pode ser “regulada” tão simplesmente. Nosso cérebro funciona como uma rede extremamente complexa e interdependente, isso significa que tentar “manipular” o sistema por conta própria, baseando-se em modismos da internet, ignora a engenharia que mantém a nossa integridade neurológica equilibrada.
O fato é que o tal “vício em dopamina” não existe. Colocar a dopamina como a culpada por todos os nossos hábitos ruins é ignorar a importância desse neurotransmissor para o bem-estar humano. Reduzir os estímulos como as redes sociais, melhorar a alimentação e evitar comportamentos compulsivos definitivamente são ótimos aliados de uma vida balanceada. Porém, vale lembrar que, comportamentalmente, não é possível reduzir o nível basal de dopamina no cérebro. O que o “jejum” faz é apenas evitar os picos artificiais e intensos desse neurotransmissor. O verdadeiro segredo está em reeducar nossa sensibilidade aos estímulos do dia a dia, aprendendo a encontrar satisfação em atividades mais tranquilas.
Fontes:
THOMASY, H. Debunking the Dopamine Detox Trend . Disponível em: <https://www.the-scientist.com/debunking-the-dopamine-detox-trend-72036>.
GRINSPOON, P. Dopamine fasting: Misunderstanding science spawns a maladaptive fad. Disponível em: <https://www.health.harvard.edu/blog/dopamine-fasting-misunderstanding-science-spawns-a-maladaptive-fad-2020022618917>.
Para saber mais:
Bruno Marques (Neurociência Descomplicada) | https://www.youtube.com/@NeuroDescomplicada


