Um olhar crítico às linguagens do amor (V.9, N.3, P.4, 2026)

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Tempo de leitura: 3 minutos
#acessibilidade: A imagem traz um casal se abraçando em meio a uma comemoração, um deles segura uma taça e atrás deles há uma decoração nas cores do arco-íris na parede. Fonte: Freepik

Texto escrito pela colaboradora Ana Clara Da Silva Mota

Provavelmente você já se deparou com frases que envolvam o termo “linguagem(ns) do amor” em algum momento. Esse assunto invadiu as redes sociais e o cotidiano fora delas, sendo bastante comum encontrá-lo como justificativa para demonstrar afeto de determinadas maneiras. Mas, será que podemos considerá-la uma abordagem saudável e segura para falar sobre o amor?

A teoria por trás de todos os conteúdos e comentários sobre o assunto vem do livro As Cinco Linguagens do Amor de Gary Chapman, publicado pela primeira vez em 1992. Neste, Chapman propõe que as pessoas teriam uma linguagem do amor primária e que ser amado(a) a partir desta fortaleceria o relacionamento conjugal -principal objetivo do autor na obra.

Partindo dessa premissa, ele define cinco linguagens do amor:

  1.  palavras de afirmação: expressões de amor através de elogios e incentivos; 
  2. tempo de qualidade: ato de passar um tempo com a pessoa amada com dedicação total;
  3. presentes: o ato de presentear; 
  4. atos de serviço: demonstrar apreço através de ações práticas; 
  5. toque físico: abarca todas as formas de toque físico desde segurar as mãos até atos sexuais.

A aparência de método e autoridade da obra — alimentada pela vasta quantidade de depoimentos positivos e pelo sucesso comercial em mais de 50 idiomas — mascara uma fundamentação teórica inconsistente. Os relatos que Chapman utiliza não possuem rigor científico; são experiências isoladas que não substituem estudos empíricos, tornando a base de sua teoria frágil para sustentar uma análise científica.

Além disso, quando o questionário trazido ao final do livro -que promete descobrir a linguagem do amor primária do(a) leitor(a)- foi analisado e comparado com questionários efetivamente psicológicos ele apresentou inconsistências. A ideia de “linguagem primária” não se sustenta frente à complexidade humana, ao passo que não existem provas de que existem apenas cinco formas de demonstrar e receber amor.

Também é válido destacar o subtexto da obra, ou seja, aquilo que é comunicado sem precisar ser escrito. Nele, existe uma tentativa em induzir o leitor a um autossacrifício excessivo frente ao relacionamento e a uma romantização da anulação de suas próprias vontades. Esse é um dado alarmante porque muitas vezes os conteúdos sobre linguagens do amor são produzidos sem considerar a romantização de relações abusivas existente na obra de Chapman.

Retornando a nossa pergunta inicial, basear-se na noção de linguagens do amor como lente para a construção de um relacionamento saudável é problemático visto que a própria teoria pode naturalizar formas de opressão. É como se o sucesso de um relacionamento entre duas pessoas que falam idiomas diferentes fosse reduzido a uma delas se submeter a conversar somente no idioma que não o seu original.  

Por outro lado, entender que as pessoas possuem formas distintas de demonstrar afeto pode ser um ponto de partida interessante para ampliar nossas lentes sobre o amor. Em Tudo sobre o amor: novas perspectivas (2021), bell hooks apresenta uma perspectiva crítica sobre o assunto, defendendo que o amor é ação e que parte de escolhas conscientes e práticas éticas.

Fontes:

Almeida, Elídio. As cinco linguagens do amor, três suposições e as ciências dos relacionamentos. In: Psicologia: teorias e práticas em pesquisa. Vol. 2, 2024. p. 50–??. ISBN 978-65-5360-659-3. Disponível em: https://downloads.editoracientifica.com.br/articles/240215766.pdf.

Chapman, Gary. As Cinco linguagens do amor: como expressar um compromisso de amor a seu cônjuge. 3. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1992/2013. 207 p. 46ª reimpressão: 2023.

hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. São Paulo: Elefante, 2021.

Para saber mais:

BOWEN, J. D.; Winczewski, L. A.; Collins, N. L. Language style matching in romantic partners’ conflict and support interactions. Journal of Language and Social Psychology, v. 36, n. 3, p. 263–286, 2017.

Outros divulgadores:

Black Mirror e os universos amorosos de “Hang the DJ”

AS 5 LINGUAGENS DO AMOR

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