Texto escrito pelo colaborador Guilherme Paiva Sitta Simões
Se você já se interessou por super-heróis ou já leu alguma HQ, certamente sabe quem é o Flash. Ele é uma das maiores referências da cultura pop quando o assunto é velocidade. Diferente de outros personagens que apenas correm muito rápido, o Flash tem seus poderes associados a uma entidade chamada “Speed Force”, uma espécie de campo de energia que permeia o universo e é responsável por conceder habilidades sobre-humanas relacionadas ao movimento do personagem.
Mas afinal, como definir o que é velocidade?
A física a define como a variação da posição no tempo. Quanto maior a distância percorrida em menos tempo, maior a velocidade. Simples, certo? Mas quando colocamos o Flash na equação, as coisas ficam… complicadas.
Esse herói dispensa apresentações, como um dos velocistas mais icônicos da cultura pop, o Flash sempre esteve presente em discussões épicas. Se você acompanha o mundo geek há algum tempo, provavelmente se lembra do canal Nerdologia analisando a força dos socos entre heróis. Aqui, vamos levar essa análise além e calcular qual seria a potência real do golpe do Flash quando ele corre em sua velocidade máxima.

Antes disso, porém, é necessário esclarecer alguns pontos importantes para que a discussão faça sentido.
1° ponto: como podemos medir o impacto de um soco?
Quando falamos na “força” de um soco, estamos interessados na Energia Cinética envolvida, que, de maneira simples, é a energia que um corpo possui por estar em movimento. Quanto mais rápido o movimento e quanto maior a massa do objeto, maior será essa energia e, portanto, maior será o efeito ao atingir algo. Em velocidades baixas, como a de um boxeador, a física clássica funciona. Mas quando chegamos perto da velocidade da luz, precisamos da Relatividade Especial (sim! Aquela proposta por Einstein).
À medida que um objeto se aproxima da velocidade da luz, sua energia não cresce de forma linear, mas sim exponencial.
2° ponto: qual flash estamos considerando?
Ao longo dos anos, diferentes personagens assumiram o manto do Flash, cada um com limites distintos. Para esta análise, será considerado o Flash mais rápido já apresentado, Wally West, oficialmente reconhecido pela DC Comics como o velocista máximo do seu universo ficcional.

3° ponto: qual a velocidade máxima atingida por Wally West?
No universo dos quadrinhos, não existe um número único e oficial para a velocidade máxima que Wally pode atingir, porque os roteiristas muitas vezes exageram e adaptam essas capacidades dependendo da história que querem contar. Ainda assim, há referências e cálculos baseados em feitos mostrados nas histórias que dão uma ideia do tipo de velocidade colossal que ele alcança.
Algumas cenas e interpretações sugerem que Wally pode ultrapassar com facilidade a velocidade da luz, alcançando múltiplas vezes esse valor. Por exemplo, em certos momentos ele é capaz de se mover tão rapidamente que escapou de explosões nucleares em frações de tempo extremamente curtas, o que, ao ser traduzido em números, corresponde a velocidades na casa de milhares ou até trilhões de vezes a velocidade da luz. Para ilustrar isso, um cálculo citado por fãs com base em um desses feitos aponta para algo em torno de 13 trilhões de vezes a velocidade da luz (eu disse que os roteiristas exageravam).
Caso queira conferir esse feito, ele está presente na revista JLA de 1997, nº 89.
Com essas definições, podemos finalmente entrar no cerne da questão. Para velocidades muito altas, próximas à velocidade da luz, a energia cinética não pode ser calculada pela fórmula tradicional. A expressão correta é a energia cinética relativística, dada por Ek = mc² / √(1 − v²/c²) − mc².
Nessa equação, “m” representa a massa envolvida no movimento, “v” é a velocidade do objeto e “c” é a velocidade da luz, aproximadamente 300 milhões de metros por segundo.
Para termos uma estimativa, vamos supor que apenas a mão e parte do braço do Flash estejam diretamente envolvidos no impacto do soco, resultando em uma massa efetiva de cerca de 5 kg. Esse valor não é exato, mas é suficiente para uma análise de ordem de grandeza. A partir disso, podemos observar como a energia cresce à medida que a velocidade se aproxima da velocidade da luz.
Cenário 1: 90% da velocidade da luz
Se o soco fosse aplicado a 90% da velocidade da luz, o fator relativístico já teria um efeito significativo. Ao substituir esse valor na equação, obtemos uma energia da ordem de 10¹⁷ joules. Para efeito de comparação, a bomba de Hiroshima liberou cerca de 6 × 10¹³ joules. Isso significa que um único soco nessa velocidade já teria uma energia milhares de vezes maior do que a de uma explosão nuclear histórica.
Cenário 2: 99% da velocidade da luz
A situação se torna ainda mais extrema quando consideramos 99% da velocidade da luz. Nesse caso, a energia calculada sobe para aproximadamente 10¹⁸ joules. Estamos falando de centenas de bombas nucleares concentradas em um impacto extremamente localizado. Em termos práticos, um golpe assim não apenas destruiria qualquer alvo, mas causaria uma devastação massiva no ambiente ao redor.
Esse crescimento explosivo ocorre porque, na fórmula relativística, o termo presente no denominador se torna cada vez menor à medida que a velocidade aumenta. Isso faz com que a energia cresça sem limites bem antes de se atingir a velocidade da luz. Por esse motivo, a Relatividade Especial afirma que um objeto com massa jamais pode alcançar essa velocidade: a energia exigida tende ao infinito.
E aqui está o ponto crucial quando comparamos com o Flash. Se velocidades muito próximas à da luz já resultam em energias comparáveis às de ogivas nucleares, então velocidades de milhares ou trilhões de vezes a velocidade da luz, simplesmente não possuem significado físico. Ao tentar inserir esses valores na equação relativística, o cálculo deixa de fazer sentido matemático. Importante ressaltar que isso não indica uma falha da Física, mas sim que esses movimentos estão completamente fora do domínio da realidade.
Além disso, um soco acontece em um intervalo de tempo extremamente curto. Isso significa que toda essa energia seria liberada quase instantaneamente, resultando em uma potência absurdamente alta, muito superior a qualquer coisa já produzida pela nossa tecnologia. Mesmo antes de atingir a velocidade da luz, o impacto já teria efeitos equivalentes aos de uma explosão nuclear concentrada em um único ponto.
Assim, quando os quadrinhos mostram Wally atingindo velocidades trilhões de vezes maiores que a da luz e desferindo golpes sem destruir o planeta, fica claro que estamos lidando com pura ficção. A “Speed Force” funciona como um mecanismo narrativo que ignora os limites da Relatividade, da conservação de energia e do próprio espaço-tempo. Dentro da Física real, não existe um número para a potência de um soco nessas condições, porque esse soco simplesmente não poderia existir.
Massssssss,
Ainda assim, deixando a Física real de lado e entrando deliberadamente no campo da especulação mais extrema, é interessante considerar: se aceitássemos que o Flash pode atingir velocidades milhares ou até trilhões de vezes maiores que a da luz, a que tipo de fenômeno esse soco poderia ser comparado?
Se usarmos a ideia clássica de que a energia cresce com o quadrado da velocidade, o aumento seria avassalador. 
Um soco aplicado a trilhões de vezes a velocidade da luz ultrapassa com folga toda a energia liberada por qualquer coisa já construída pela humanidade. Estaríamos falando de valores comparáveis à energia liberada pelo impacto de grandes asteroides, capazes de causar extinções em massa, ou até de eventos astrofísicos em escala planetária.
Nesse cenário hipotético, um único golpe do Flash envolveria uma quantidade de energia comparável à necessária para superar a energia de ligação gravitacional de um planeta rochoso, também suficiente para elevar oceanos inteiros acima do ponto de vaporização, convertendo grandes massas de água em vapor quase instantaneamente. Em ordens de grandeza ainda mais elevadas, esse impacto poderia ser comparável à liberação energética observada em processos estelares altamente violentos, como explosões durante fases extremas da evolução de estrelas.
Com isso, percebemos que a velocidade da luz não é apenas um número grande, mas um limite físico real. Muito antes de alcançá-la, um simples soco já envolveria energias comparáveis às de grandes explosões, tornando impossível qualquer ação localizada sem consequências catastróficas.
Por isso, quando personagens como o Flash se movem várias vezes mais rápido que a luz sem destruir o planeta, entramos definitivamente no campo da ficção. A graça da comparação vai além de medir o poder do herói, mas em perceber como as leis da Física que governam o mundo são restritivas e, justamente por isso, tornam o Universo estável.

Fontes:
SANTOS, J. C. dos; PIASSI, L. P. C. Física com super-heróis: uma proposta de ensino baseada em histórias em quadrinhos. Araras: FHO. 1 e-book. Disponível em: https://vestibular.fho.edu.br/assets/downloads/E-book-Livro-Fisica-com-Super-Herois.pdf.
JLA (comic book). In: WIKIPEDIA: the free encyclopedia. Wikimedia Foundation, 2024. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/JLA_(comic_book).
NERDOLOGIA. Qual o soco mais forte?, 2013. 1 vídeo (6 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=iItfqDViLcg.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS. Instituto de Física Gleb Wataghin. Aula 5: Relatividade I. Campinas: IFGW/UNICAMP, 2014. Disponível em: https://portal.ifi.unicamp.br/images/files/graduacao/aulas-on-line/fisica-geral-iv/Aula_5_Relatividade_I_1sem2014_disponibilizado.pdf.
DC. The Flash. DC. Disponível em: https://www.dc.com/characters/the-flash.
R/THEYDIDTHEMATH. The math behind how the Flash saved a population of 500k people from a nuclear bomb. Reddit, 2014. Disponível em: https://www.reddit.com/r/theydidthemath/comments/20512t/the_math_behind_how_the_flash_saved_a_population/.



