#acessibilidade: Desenho apresenta um extraterrestre verde e um dinossauro roxo abraçando um telescópio. No centro do telescópio, há uma estrela cadente amarela e o ambiente está envolto por outras estrelas amarelas.
Texto escrito pelo colaborador Artur F. Keppler
No texto anterior (se você não leu, fica a dica), apontamos nossos radiotelescópios para o Meio Interestelar e vimos que os sinais de compostos orgânicos são marcadores de que, naquele ponto, existe um berçário que pode levar ao surgimento de algum tipo de vida [1].
Em uma nuvem de gás, segundo a lei dos gases que conhecemos hoje, as interações intermoleculares e o número de choques entre as moléculas são muito baixos. Dessa maneira, as reações químicas são limitadas e, consequentemente, é ínfima a probabilidade de surgirem seres complexos nesse amontoado de moléculas dispersas. Porém, nessas regiões, conhecidas como berçários, ocorrem reações químicas que geram pequenas moléculas orgânicas, peças-chave para construir moléculas maiores e essenciais para o surgimento e/ou para a manutenção da vida. Essas pequenas moléculas, chamadas de pré-bióticas ou “sementinhas”, para gerar algum tipo de vida, têm que ser “plantadas” em um local favorável para seu crescimento, no caso, um corpo celeste com uma superfície líquida ou sólida [2], onde encontrarão outros ingredientes necessários para a complexificação molecular [3]. Essas moléculas podem se agregar à matéria de um corpo celeste em formação ou se agarrar a um dejeto espacial que vai se deslocar pelo universo, carregando por centenas ou milhares de anos-luz a peça que faltava para o desenvolvimento da vida em uma lua ou planeta ainda inabitado [4][5].
Ao mesmo tempo que um cometa pode atuar como a faísca da criação, também pode, dependendo do seu tamanho e trajetória, dizimar a vida que lá existia. Um caso muito famoso é o do cometa que caiu há milhões de anos na Terra, aquele que poderia ter trazido compostos orgânicos inéditos para nosso planeta, mas não, seu choque desencadeou uma cascata de eventos que dizimou os dinossauros. (Nota do autor: Vocês não sabem como eu reescrevi esse texto para juntar astroquímica com grandes répteis!).
Outros tantos objetos celestes se chocaram aqui com nosso planeta, todos em magnitudes pouco significativas, ao se compararem com a queda do cometa-arrasa-dinossauros. Há uma proteção invisível, que não é divina. É o grande cinturão gravitacional que afasta grandes corpos celestes da rota de colisão com nosso querido planeta [6]. Os pequenos objetos que escapam dessa força atrativa, são barrados por uma segunda, e não menos importante, camada de proteção: nossa atmosfera. Ela é composta por moléculas com baixíssima interação intermolecular, pois estão na fase gasosa. Se para a geração de vida essa condição é desfavorável, para a proteção da nossa vida, a atmosfera terrestre é muito relevante. O oxigênio e nitrogênio gasosos espalhados pelos cerca de 6400 km de raio atmosférico [7], geram um atrito absurdo com os objetos celestes invasores e os despedaçam em pequenos fragmentos. Aqueles que caem na superfície terrestre não fazem cosquinha no nosso ecossistema e podem ser inofensivos, pois há 50% de chance de cair em uma área desabitada (temos muitos corpos aquáticos). Esse fenômeno de destruição foi transformado em um ritual: “faça um pedido” para a estrela cadente. Portanto, se você estiver em um local pouco iluminado, debaixo de um céu noturno sem nuvens, você pode pedir para que aquele objeto celeste flamejante e em alta velocidade, não caia na sua cabeça, na sua casa ou na sua cidade.
Considerando a idade do nosso planeta e tudo que poderia ter acontecido com ele, a ciência e a história nos mostram que quem mais nos ameaça não são as forças da natureza que lançam pedregulhos em nossa direção e sim, uma rara espécie de seres que parecem vindos de outro planeta [8]. Seres que buscam planetas habitáveis enquanto suas ações predatórias degradam, de forma irreversível, o único planeta que realmente conhecemos como viável para a vida. Financiam as guerras ao mesmo tempo que injetam muito dinheiro para desbravar um espaço completamente hostil à sobrevivência humana. Percebem as contradições? E se rasparmos a fina camada de ouro do aparente “interesse científico” e olharmos por outra perspectiva, a busca por recursos minerais e territoriais é o verdadeiro motor que financia os projetos de colônias além-Terra, seja em Marte ou, mais recentemente, na Lua. É a repetição do modelo colonial. Agora não mais em África, nas Américas ou em terras além-mar. O planeta Terra, ao que parece, para eles é insuficiente.
Para nós não!
E para simbolizar minha esperança em dias melhores, selecionei a história dos Jetsons (nome fictício, pois pediram anonimato). Não, não! Eles não concederam uma entrevista para o Guia dos Entusiastas da Ciência. Infelizmente! Mas vou amarrar alguns artigos científicos e contar para vocês, na última parte dessa jornada espacial, como um meteorito rochoso entrou no telhado da casa dos Jetsons, na vida deles e, quem sabe, no coração de vocês.
Até breve!
Fontes:
- Podem existir milhares de outros tipos de vida, desconsiderados pelos seres humanos por uma limitação criativa, ou científica ou por cegueira deliberada.
- Foi isso mesmo que pensaram, as sementinhas germinam (reagem com outros compostos) com mais facilidade em um meio reacional onde as interações intermoleculares sejam mais frequentes e fortes.
- De maneira bem simplificada, cada peça que é adicionada a um esqueleto orgânico estrutural, gera um aumento de complexidade molecular (também conhecida como evolução química). Se for adicionada uma hidroxila a uma molécula de metano, geramos o metanol. Nesse processo, que pode ocorrer por diversos caminhos (mecanismos), dizemos que ocorreu a tal complexificação. Vale ressaltar que a complexificação não gera necessariamente a compostos orgânicos pré- ou pró-bióticos.
- Existe uma teoria que sustenta que a primeira forma de vida na Terra tem origem extraterrestre. Segundo a Pseudo-Panspermia, parte dos compostos com importância biológica (pré-bióticos ou moléculas complexas) foi introduzida no planeta Terra a partir de meteoritos, micrometeoritos e cometas. Análises laboratoriais de meteoritos que caíram em solo terrestre revelam a presença de moléculas complexas que poderiam, em tese, ser o ponto de partida para a síntese de moléculas importantes à vida. Falaremos dessas análises no próximo texto. Eis uma teoria, dentre tantas, que tenta explicar o surgimento da vida na Terra.
- Endogenous production, exogenous delivery and impact-shock synthesis of organic molecules: an inventory for the origins of life, Chiba, C. and Sagan, C. Nature, volume 355, pages 125–132 (1992). Para quem tiver acesso, fica o link https://www.nature.com/articles/355125a0
- Grandes objetos espaciais são desviados da rota de impacto com o nosso planeta através da assistência gravitacional de Júpiter, Saturno e do Sol. Por terem uma massa colossal, esses corpos celestes possuem uma força gravitacional imensa. Quando objetos menores (cometas ou rochas) vindos das bordas externas do sistema solar se direcionam ao interior, onde a Terra está, a gravidade de Júpiter, por exemplo, altera drasticamente suas trajetórias. Eles arremessam os objetos para fora do sistema solar, os trituram ou os capturam em órbitas seguras e distantes da Terra. O papel de Júpiter como escudo protetor de nosso planeta foi demonstrado em julho de 1994, quando o cometa Shoemaker-Levi 9 (SL9), de 2 km de diâmetro, foi despedaçado pelas forças gravitacionais do planeta. Os 21 fragmentos, resultantes da fragmentação, mergulharam na atmosfera de Júpiter a 216.000 km/h, liberando uma energia absurda, deixando uma cicatriz no planeta do diâmetro DA TERRA! Tudo isso foi capturado, em tempo real, pelo Telescópio espacial Hubble. Se quiser ver uma boa discussão do assunto, acesse O IMPACTO DO COMETA SHOEMAKER-LEVY 9 COM JÚPITER!! A MAIOR EXPLOSÃO JÁ REGISTRADA PELO SER HUMANO!!!
- A composição química da atmosfera terrestre é altamente estável, com 78% de nitrogênio (N2 gasoso) e 21% de oxigênio (O2 gasoso). Outros gases, como ozônio, argônio, dióxido de carbono e água, são considerados gases traço.
- É importante nomear, para saber quem são os personagens em quem devemos estar de olho: esses seres são os super-ricos; os bi e trilionários. Representam aproximadamente 0.000036% da população mundial (1 bilionário para cada 2,7 milhões de pessoas) e causam mais estrago do que desastres naturais.


