#acessibilidade: Desenho apresenta um extraterrestre verde, mostrando uma molécula com a fórmula do ácido cianídrico (HCN).
Texto escrito pelo colaborador Artur F. Keppler
Ouso dizer que os extraterrestres exercem sobre os adultos o mesmo fascínio e magnetismo que os dinossauros exercem sobre as crianças. Alguns descendentes desses grandes répteis ainda vivem entre nós, mas diminuíram de tamanho e se tornaram desinteressantes para a maioria das pessoas. Como nunca teremos a chance de trazer os gigantes pré-históricos de volta — desculpe, crianças —, nossa esperança de vivenciar algo genuinamente novo se volta para a fronteira interestelar. Seja pelo medo ou pela curiosidade, o fato é que o tema “alienígenas” virou um ímã de cliques. Reparem em quantas notícias sobre OVNIs, cometas e sinais de vida no espaço têm surgido nos nossos feeds ultimamente. Vocês também recebem esse tipo de conteúdo?
Essa enxurrada de menções à vida extraterrestre não é por acaso; ela reflete o nosso desejo profundo de desvendar os mistérios do cosmos e, claro, o algoritmo sabe disso. Mas, no meio de tantas teorias da conspiração e borrões em fotos de satélite, surge a necessidade de separar a fantasia da ciência
Então, vamos aproveitar essa onda alienígena aqui no nosso Guia — que, convenhamos, é muito mais científico do que o Guia do Mochileiro das Galáxias, o livro de cabeceira do “Tonho da Lua” do Elon Musk.[1]
Vida, matéria orgânica e astroquímica
O surgimento da vida, assim como os rumos da nossa vida, são governados pelo acaso. Em cada credo e em cada simbologia individual, a Vida tem um significado particular. Fugindo rapidamente do viés filosófico-religioso[2] é incontestável a definição de que a vida só existe quando ocorre um arranjo minucioso de compostos orgânicos, inicialmente como uma orquestra afinadíssima de pequenas moléculas, que se combinam para formar moléculas maiores, operando de forma mutualística para o crescimento, regeneração e reprodução daquela entidade que entendemos como um ser vivo. Quanto mais complexo, mais refinadas são as funções desempenhadas pelas moléculas contidas naquele invólucro. Dessa maneira, é inevitável correlacionar Vida à química de compostos orgânicos. Para que seja biocompatível — isto é, interagir de maneira segura com um organismo vivo — o composto orgânico tem que ter no mínimo um átomo de oxigênio e/ou nitrogênio, além, obviamente, de átomos de carbono e hidrogênio.
Aqui na Terra, encontrar seres vivos é uma tarefa bem simples, mas no Meio Interestelar, são necessários radiotelescópios que empregam diversas técnicas de espectroscopia para detectar elementos, como sódio presente nas camadas gasosas externas e frias do Sol [3][4] e moléculas presentes em corpos celestes distantes. Atualmente, os radiotelescópios mais modernos, além da detecção direta de sinais de microondas, infravermelho, ultravioleta e de rádio, para detectar moléculas mais complexas, empregam uma técnica chamada de espectroscopia rotacional [5] que permite identificar sinais que anteriormente vinham embaralhados e eram tratados como ruído.
Os radiotelescópios não enxergam a Vida per se, mas sinais de marcadores moleculares que indicam que naquele local, existem condições para que a Vida floresça, se o acaso permitir, claro. Hoje, apesar de termos acesso a técnicas muito mais refinadas, como eu disse antes, moléculas complexas geram linhas espectrais similares a uma infinidade de compostos similares. Somando a limitação técnica à teoria teórico naturalista mais difundida no meio acadêmico, os radioastrônomos e astroquímicos, procuram no Meio Interestelar sinais característicos de compostos orgânicos pré-bióticos. O ácido cianídrico (HCN) é o mais simples e universalmente aceito — pelos cientistas terráqueos — como a moeda química da biogênese interestelar [6]. À partir dele pode-se — segundo a rota ciânica — sintetizar aminoácidos e bases nitrogenadas, que são respectivamente blocos de construção de proteínas, e DNA/RNA, biopolímeros que desempenham funções relevantes em organismos vivos [7].

Açúcares, lipídios e fosfatos também são considerados blocos de construção essenciais para seres vivos, porém usam outras fontes moleculares de partida, mas se cruzam sinteticamente no caminho do HCN.


Trabalhos de pesquisadores renomados mostram quais proporções de reagentes, temperaturas, tipos de radiações e pHs é possível sintetizar compostos orgânicos essenciais para aquilo que chamamos de vida. A maioria dos experimentos publicados até hoje buscam reproduzir as condições de uma Terra primitiva e não necessariamente as condições que a matéria de uma nuvem estelar está exposta na vizinhança de uma estrela em nascimento, por exemplo. Em resumo, os mecanismos de combinação molecular, a síntese interestelar de compostos orgânicos, podem ser completamente diferentes da lógica ensinada nos cursos de química.
Descobertas Recentes — incríveis notícias vindas do espaço
Quando pensamos em moléculas biologicamente relevantes, o ano de 2026 foi particularmente animador para os astrobiólogos/químicos e entusiastas da ciência. Publicações recentes mostram dados que confirmaram a existência de compostos orgânicos complexos no Meio Interestelar, que nunca antes foram detectados por nossos radiotelescópios.
Em julho de 2026, Jiménez-Serra e colaboradores publicaram um artigo que detectou pela primeira vez um “açúcar verdadeiro” no meio interestelar [9]. A eritrulose é o maior monossacarídeo detectado até então [10]. No início desse ano, também foi anunciada a detecção da maior molécula orgânica contendo enxofre, a 2,5-ciclohexadieno-1-tiona [11]. Vale lembrar que o enxofre é um elemento presente em inúmeras proteínas e essencial para o funcionamento de diversas enzimas. Dois isômeros do cianoacenaftileno (3- e 4-cyanoacenaphthylene) também foram recentemente detectados no meio interestelar, expandindo a lista oficial de hidrocarbonetos complexos com nitrogênio [12]. A metanimina (CH2=NH) foi encontrada espalhada em um núcleo pré-estelar e funciona como um bloco de construção de compostos pré-bióticos, pois como já vimos na figura 1, de forma análoga à aminas, a imina reage com o HCN para formar a glicina, o aminoácido mais simples que conhecemos [13]. Por fim, teve a passagem do 3I/Atlas pelo nosso sistema solar (lembra?). O cometa liberou cianeto, metano e quatro vezes mais metanol do que os cometas do nosso próprio sistema, provando a abundância de compostos orgânicos oriundos de outros sistemas estelares [14].

Vamos fazer uma parada estratégica para esticar as pernas. Na próxima e última parte da nossa jornada espacial, o tema será a ciência por trás da identificação de compostos orgânicos em solo terráqueo, usando como gancho uma cena que parece de cinema. Em Julho de 2024, uma rocha espacial rasgou o céu de NY, passou ao sul da Estátua da Liberdade e caiu pertinho da região metropolitana de Nova Jersey, trazendo informações químicas nunca antes detectadas pelos radiotelescópios. Fiquem atentos e até breve.
Fontes:
- Por que dinossauros no título e no comecinho do texto? Marketing digital meus amigos, marketing digital
- Caso não saiba, o livro “Guia do Mochileiro das Galáxias” é, segundo a biografia do Musk, o livro que inspirou e guiou sua tara por criar colônias em marte e a injeção de bilhões de dólares, do governo americano inclusive, na Space-X. O GMG foi escrito pelo Douglas Adams, um gênio do humor que se aventurou ao satirizar e profanar o tão sério ramo literário da ficção científica. O livro base foi série da BBC e virou filme em 2005. Dá uma chance, leia e se divirta. Mas por favor, não vire um bilionário fascista.
- Se você tiver curiosidade sobre aspectos filosóficos sobre origem e sentido da vida, você pode se debruçar sobre os escritos de Aristóteles, Anaxágoras, Demócrito e usando um formato mais moderno, nas magistrais palestras da filósofa Lúcia Helena Galvão, professora da escola de filosofia Nova Acrópole Brasil (tem muita coisa boa no YouTube)
- Além de Hidrogênio e Hélio, nosso Sol também tem pequenas frações de outros elementos que podem ser detectados em pontos específicos da sua superfície. https://www.if.ufrgs.br/oei/stars/sol/sol.htm
- Uma breve história da relação da astronomia com a espectroscopia e também com alguns detalhes muito interessantes sobre a descoberta de alguns elementos, como o césio, rubídio e o hélio. THOMAS, N. C. The Early History of Spectroscopy. Journal of Chemical Education, v. 68, n. 6, p. 631–634, 1991.
- Para compostos complexos, maiores que átomos isolados ou moléculas dinucleares, não dá apenas para captar a radiação emitida pelo corpo celeste, é necessário corrigir a “assinatura espectral” das moléculas, considerando que elas giram em seus próprios eixos (pense em vetores x, y e z). O tamanhos, ramificações e pesos são fatores que influenciam no modo rotacional dos compostos e precisam ser considerados. Talvez esse não seja o melhor artigo para explicar a técnica, mas aqui tem um pouco da história da evolução das técnicas associadas aos radiotelescópios https://onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/qua.25180
- Assim como todas as teorias, tratar o HCN como material de partida mais importante para compostos pré-bióticos não é unanimidade no meio acadêmico. Até que um cientista de outro local do nosso universo me prove o contrário, a rota ciânica é bem convincente para mim. Vale lembrar que não sou também especialista na área. Um pouco da plausabilidade dessa rota pode ser conferida no artigo de Osamu Kikushi e colaboradores em https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0166128099003565
- Vocês devem lembrar que os DNA/RNA desempenham a função de armazenamento e transmissão de informações para a reprodução e regeneração do ser vivo (material genético), enquanto os peptídeos (proteínas e enzimas) participam da estruturação do ser, transporte de nutrientes e catálise de reações metabólicas e catabólicas (fazem outras coisas também…). O terceiro grupo de biopolímero que sustenta a vida são os lipídios e fosfolipídios, responsáveis pelo encapsulamento de outras biomoléculas, criando assim a compartimentalização necessária para que os compostos bioativos estejam em um local adequado para desempenhar suas funções e protegidos do meio externo
- https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1674987117301305
- A Eritrulose é considerado um “açúcar de verdade” por que tem que cumprir com três pré-requisitos para ser considerado um monossacarídeo: 1. ter a fórmula empírica (CH2O)n , possuir uma cadeia de carbono não ramificada, conter um grupo carbonila em uma das pontas do esqueleto e ter hidroxilas em sua estrutura. Os monossacarídeos mais conhecidos são a glicose e a frutose, uma hexose e uma pentose, respectivamente. Com essa deixa, se eu fosse astroquímico, eu apontaria para a Via Láctea e buscaria lactose — nota do autor.
- Detection of a four-carbon sugar in interstellar space, artigo aberto para consulta https://www.nature.com/articles/s41550-026-02905-7
- https://www.nature.com/articles/s41550-025-02749-7. Por sinal o Prof. Mitsunori Araki (do instituto Max Planck) mantém uma página com todas as estruturas químicas, informações sobre a origem dos dados espectrais, nome dos radiotelescópios usados nas descobertas de sinais de moléculas interestelares. Só clicar https://molecules-in.space/
- https://www.aanda.org/articles/aa/abs/2026/01/aa57893-25/aa57893-25.html
- https://www.space.com/astronomy/stars/astronomers-discover-chemicals-that-could-seed-life-in-the-core-of-a-developing-star
- https://www.cnnbrasil.com.br/ciencia/cientistas-descobrem-molecula-no-espaco-que-indica-a-origem-da-vida,


