#acessibilidade: Uma fotografia de um celular sendo utilizado num ambiente escuro. Fonte: Freepik
Texto escrito pela colaboradora Gabriela do Nascimento Barbosa
Hang the DJ, o 4º episódio da 4° temporada da série Black Mirror lançada em 2011, apresenta a visão de duas realidades diferentes que convergem. Em uma delas, as pessoas vivem dentro do que chamam de “Sistema”, constituído por um algoritmo de previsões, um machine learning. Nessa realidade, há um aplicativo de relacionamentos conhecido como “O Sistema”. O Sistema faz com que você tenha diversos encontros, relacionamentos casuais ou duradouros, já que é o aplicativo que determina a data de validade de cada relação e faz todas as escolhas pelos pares. Por fim, determina o “Dia da União”, onde você terá encontrado sua alma gêmea.
O que os personagens dessa realidade não sabem é que estão dentro de apenas uma, dentre repetidas simulações! Isto por conta do objetivo de identificar casais que apresentam compatibilidade e que ultrapassam o “teste” ao escapar do jogo. Tal escape do Sistema, ou seja, a fuga do casal, ocorrendo em 998 vezes das 1000 simulações, se torna um match, que se passa em menos de alguns segundos, na realidade adjacente (sua mente já explodiu!?).
Os personagens Amy e Frank questionam a funcionalidade do Sistema e chegam ao “Paradoxo da Escolha”, termo cunhado pelo psicólogo Barry Schwartz. No cenário digital de relacionamentos, isso significa que aplicativos de namoro e redes sociais oferecem uma variedade quase infinita de possíveis parceiros, criando a ilusão de liberdade de se relacionar, mas, paradoxalmente, dificulta o comprometimento e a construção de vínculos mais profundos. (SARDEIRO et al., 2025) Tal fato é evidenciado quando olhamos aplicativos de relacionamento, seus deslizes para esquerda ou direita, e o poder de decidir o seu futuro match. A superficialidade das relações se denota cada vez mais evidente e, para tal, ainda não temos um Sistema! Mas como seria se tivéssemos a data de validade de nossos relacionamentos? Isso influenciaria a maneira como nos comportamos? Ou como nos submeteríamos às diversas relações na esperança do par ideal?
Episódios como este de Black Mirror, evidenciam uma forte crítica ao mercado tecnológico e às nossas relações. E como falar sobre Relações Humanas na contemporaneidade sem falar no clássico Bauman e sua ideia de Modernidade Líquida?
“Tudo está agora sendo permanentemente desmontado mas sem perspectiva de alguma permanência. Tudo é temporário. É por isso que sugeri a metáfora da “liquidez” para caracterizar o estado da sociedade moderna: como os líquidos, ela caracteriza-se pela incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades “auto-evidentes”
(BAUMAN, 2004)
A liquidez e falta de forma presente na atualidade evidenciam o escorrimento do sólido por entre as mãos. Não é seguro. Não se firma. Uma analogia ideal para os aplicativos, embora exista a possibilidade de um bem comum para a mínima chance do par ideal, não deixa de ser uma grande rede de pessoas que são servidas como produtos para serem aceitas, ou não. Aliás, o que poderíamos esperar da nossa Terra de likes?
No episódio Hang the DJ, a promessa de um par ideal mediado por algoritmos reflete diretamente a lógica líquida das relações contemporâneas. No cenário atual, a experiência amorosa é cada vez mais guiada por aplicativos como o Tinder, que se valem da rapidez, da descartabilidade e da ausência de profundidade afetiva, características diretamente associadas ao consumo e à lógica mercantilista. Silva (2021) argumenta que “os aplicativos de relacionamento possuem em sua essência uma lógica mercantilista que pode levar à coisificação das relações”, pois os indivíduos são tratados como perfis facilmente descartáveis. Tal como ocorre no Sistema de Hang the DJ, onde os encontros são monitorados e calculados, os usuários dos aplicativos aceitam os vínculos pré-definidos com base em compatibilidades artificiais e projeções.
Nesse sentido, o episódio funciona como uma crítica ao que Bauman intitula como Modernidade Líquida dos vínculos promovidos pela intermediação da tecnologia nas relações amorosas, um cenário já vivenciado na realidade contemporânea. É indispensável dizer que estamos numa era completamente tomada por processos tecnológicos, onde as possibilidades de transferência do real e sensorial, para o inteligível mundo das máquinas e hardwares ocorre de forma instantânea, por mais vago que seja. Tornamos práticos a casualidade de nossas relações, seja por interface das vagas chamadas de direct, ou pela chance de encontrar a alma gêmea num app de namoro. Afinal, como teremos “99,8%” de compatibilidade após 1000 simulações artificiais como mostra a obra Black Mirror?
Referências Bibliográficas
BAUMAN, Zygmunt. Entrevista com Zygmunt Bauman. Entrevistadora: Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. Tempo Social, v. 16, n. 1, p. 301–325, jun. 2004.
HANG THE DJ. In: BLACK Mirror. Criação de Charlie Brooker. Direção de Tim Van Patten. Reino Unido: Netflix, 2017. 51 min, son., color. Temporada 4, episódio 4. Série exibida pela Netflix.
SARDEIRO, Luana de Souza et al. O PARADOXO DA ESCOLHA NAS RELAÇÕES ROMÂNTICAS NO CENÁRIO DIGITAL: CONTEXTO, CONCEITO E ENSAIO TEÓRICO. Revista Políticas Públicas & Cidades, [S. l.], v. 14, n. 1, p. e1653 , 2025. DOI: 10.23900/2359-1552v14n1-100-2025.
SILVA, Daiane Rodrigues da. Fast-food do amor: relações amorosas contemporâneas baseadas nos aplicativos de relacionamento. 2021. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia) – Universidade Federal de Alagoas, Campus Arapiraca, Unidade Educacional de Palmeira dos Índios, Palmeira dos Índios, 2021.
Para saber mais:
“O efeito que os aplicativos de namoro podem causar no cérebro”. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cnd2rgj2lrno
“Aplicativos de relacionamento e os efeitos prejudiciais à saúde mental”. Disponível em: https://gshow.globo.com/comportamento/noticia/aplicativos-de-relacionamento-e-os-efeitos-prejudiciais-a-saude-mental.ghtml


