#acessibilidade: Ilustração de uma moça branca se olhando no espelho em frente a sua penteadeira, com uma máscara de produtos no rosto. Estão em destaque na imagem: uma penteadeira com alguns dos produtos cosméticos da época. Nos produtos constam avisos de perigo, representando sua toxicidade. Imagem criada por Inteligência Artificial (Gemini, Flash 2.5).
Texto escrito pela colaboradora Caroline S. Oliveira
“Querido leitor, aqui está o segredo mais tóxico da temporada…”
Se você acha que o maior perigo na Londres da Regência era um escândalo social narrado por Lady Whistledown, prepare-se para o que virá. Enquanto acompanhamos a busca de personagens como Daphne pelo par perfeito (ou a rebeldia de Eloise), os bastidores da época escondiam um laboratório perigoso. Para ser o “diamante da temporada”, ou seja, ser a jovem mais cobiçada do momento, muitas damas pagavam caro, um preço que ia além de libras: elas poderiam pagar com a própria vida.
A Evolução da Beleza
Embora os cosméticos acompanhem a humanidade desde os primórdios, o período Regencial na Inglaterra trouxe uma grande mudança na transição entre o fim do século XVIII e início do XIX (1795-1837). Sob a influência das Guerras Napoleônicas e o resgate da estética da Roma Antiga, o padrão de beleza migrou para algo mais “leve”, que mal parecia maquiagem.
A ideia era que a beleza emanava da saúde, deixando de lado as maquiagens exageradas que eram usadas pela nobreza europeia até então. No entanto, os manuais da época, como The Art of Beauty (1825), revelavam a contradição: para alcançar a pele “saudável” – que deveria ser perfeitamente branca, sem sardas, acne ou marcas de sol-, as mulheres recorriam a rituais de beleza complexos (e perigosos).
Além da estética, havia o fator social: uma pele impecável e pálida era um símbolo de status social, diferenciando as damas daquelas mulheres que precisavam trabalhar sob o sol. Vale lembrar que nessa época a Europa passava por diversas questões de diferenciação das pessoas pela raça e países de onde vieram.
Para parecer que “não usavam nada”, elas aplicavam algumas substâncias que eram altamente tóxicas.
Prepare o seu antídoto, pois aqui estão os produtos disponíveis na época:
- O Branco de Veneza: A Palidez Não Tão Bela
Para alcançar aquela pele translúcida e impecável, a aristocracia recorria ao Branco de Veneza (chamado de Ceruse). O veneno era o carbonato de chumbo, de fórmula química 2PbCO3 . Pb(OH)2. Estudos modernos de permeação percutânea indicam que metais pesados podem atravessar o estrato córneo (a camada mais externa da pele) através dos folículos pilosos e glândulas sudoríparas. A maneira como ficavam suados nas festas provavelmente promovia a ionização do chumbo, como se ele acordasse e ficasse eletricamente ativo, facilitando sua entrada na corrente sanguínea.
O uso contínuo causava erupções cutâneas e cicatrizes. O que as pessoas faziam diante disso? Passavam mais chumbo por cima para esconder. O resultado era o saturnismo – intoxicação crônica por exposição ao chumbo – que causava sintomas como paralisia muscular, anemia e queda de cabelo, geralmente disfarçada por perucas. Outro sintoma era a ‘linha de Burton’, caracterizada por uma coloração cinza-azulada nas gengivas.
- Beladona: Por Uma Visão Diferente
Aquelas cenas românticas com pupilas dilatadas e profundas tinham um truque nada agradável: o extrato da planta Atropa belladonna. Essa planta possui uma toxina chamada atropina. As damas pingavam o extrato nos olhos para bloquear os receptores de luz do músculo da íris, causando midríase, uma dilatação da pupila. Isso simulava excitação e interesse romântico. O uso prolongado não trazia apenas beleza, mas visão turva, glaucoma secundário, fotofobia severa e, em muitos casos, cegueira permanente. Dizem que o amor é cego, mas nesse caso, era literalmente.
- Mercúrio: O Inimigo dos Libertinos
O mercúrio estava muito presente, tanto nas penteadeiras quanto nos consultórios médicos. Estava no cinábrio (chamado de “vermelhão”), uma substância usada para dar cor vermelha aos lábios e bochechas, de forma muito discreta na Era Regencial. Era também utilizada nos tratamentos para doenças venéreas, como a sífilis – a doença dos libertinos.
O mercúrio ataca o sistema nervoso central e seus sintomas incluem tremores, perda de dentes e episódios de psicose e delírio. O seu uso para tratamento contínuo causava salivação excessiva e amolecimento das gengivas, levando à perda prematura dos dentes, algo que nem imaginamos ao assistir a série.
O grande problema da época era a total falta de conhecimento formal sobre os riscos. Apesar de existirem rumores sobre a toxicidade de certos químicos, substâncias letais eram vendidas livremente, muitas vezes rotuladas como medicinais.
Nota histórica: É importante notar que nem tudo era veneno. Existiam versões seguras e naturais, como o famoso Pó de Arroz Artesanal (feito de amido de arroz, caulim e talco) e até mesmo blushes feitos da tinta extraída do pau-Brasil . Mais tarde, em 1893, o Cold Cream – uma emulsão de vaselina, cera de abelha e água de rosas – começou a ser comercializado.

Até meados de 1870, a conveniência de produtos “prontos para levar” não era muito comum. Se uma dama da Regência desejava a famosa pele de porcelana, ela não buscava uma base líquida de alta cobertura, ela ia ao boticário comprar os ingredientes, vendidos para serem moídos ou misturados em casa.
Como a vaidade nessa época era alvo de desdém moral, muitas damas não pisavam nas lojas. Elas enviavam funcionários para evitar escândalos ou encomendavam ingredientes de longas viagens intercontinentais. A maquiagem era um segredo, algo a ser escondido até do próprio marido.
O cenário mudou em 1909, com a inauguração da Selfridges (loja de departamentos) em Londres. Harry Gordon Selfridge revolucionou o mercado ao tirar os cosméticos das sombras e colocá-los logo na entrada da loja. Pela primeira vez, as mulheres podiam testar os produtos e comprá-los sem vergonha, transformando a maquiagem em um símbolo de autonomia e desejo.


Nas séries, vemos personagens com dentes perfeitos e pele impecável. Na realidade histórica, muitas das “belas” da época escondiam dentes enegrecidos e tremores sob suas vestes luxuosas. Se no século XIX o perigo era o chumbo, hoje ele pode ser a insatisfação com sua própria aparência alimentada pela sociedade. Quais rituais de beleza realmente nos trazem saúde e bem-estar e quais são apenas novos nomes para velhas prisões?
Com todo o carinho (e cuidado químico),
O Guia dos Entusiastas da Ciência
Fontes:
THE ART OF BEAUTY. London: Knight and Lacey, 1825. p. 90-125, 134-225. Disponível em: https://archive.org/details/b2492670x/page/90/mode/2up. Acesso em: 4 mar. 2026.
GUNN, Fenja. The artificial face: a history of cosmetics. London: David & Charles, 1973. p. 126-140. Disponível em: https://archive.org/details/artificialfacehi0000gunn/page/124/mode/2up. Acesso em: 4 mar. 2025.
WHORTON, James C. The arsenic century: how Victorian Britain was poisoned at home, on the work, and at play. Oxford: Oxford University Press, 2010. p. 262-293. Disponível em: https://archive.org/details/arseniccenturyho0000whor/page/293/mode/1up. Acesso em: 3 mar. 2026.
POINTER, Sally. The artifice of beauty: a history of cosmetics. United Kingdom: Sutton, 2005. p. 138-154. Disponível em: https://archive.org/details/artificeofbeauty0000poin/page/154/mode/2up. Acesso em: 4 mar. 2026.
SELFRIDGE’S: 100 years of retail therapy. The Guardian, 30 Abril 2009. Disponível em: https://www.theguardian.com/lifeandstyle/gallery/2009/apr/30/selfridges-100-years. Acesso em: 5 mar. 2026.
MENEZES, Ricardo Fernandes de. Da História da Farmácia e dos Medicamentos. In: MENEZES, Ricardo Fernandes de (org.). Da história da farmácia e dos medicamentos. [Campina Grande.: s.n.], 2012. p. 1 – p. 46.
COSMETICS and Skin: Daggett & Ramsdell. Cosmetics and Skin, [s.l.], 13 Maio 2018. Disponível em: https://cosmeticsandskin.com/companies/daggett-ramsdell.php. Acesso em: 5 mar. 2026.
Outros divulgadores:
A Modista do Desterro (@amodistadodesterro): Pauline Kisner, Historiadora da Indumentária, Bacharel e Licenciada em História (UFSC), pós-graduanda em História da Arte (Estácio de Sá), professora e divulgadora histórica em múltiplas plataformas digitais.


