#acessibilidade: Imagem representativa do exoplaneta K2-18b orbitando o espaço ao redor da estrela anã vermelha K2-18 ao lado.
Texto escrito pela colaboradora Julia Kruk
Você provavelmente já deve ter escutado inúmeras vezes sobre o encontro de alguma molécula especial em algum lugar no espaço, e mais empolgante ainda, que ela poderia ser evidência de vida. Quase sempre começa com uma onda crescente de empolgação que acaba passando sem responder a pergunta que tanto intriga a humanidade: Existe vida fora da Terra? Mais uma vez, em abril de 2025, um anúncio realizado pela equipe da Universidade de Cambridge correu o mundo e trouxe a público a detecção, através do Telescópio Espacial James Webb (JWST), de uma molécula na atmosfera de um exoplaneta localizado a 124 anos-luz da Terra, que é quase exclusivamente produzida por seres vivos.
O exoplaneta K2-18b foi descoberto em 2015 na missão K2 da NASA e completa a órbita em torno de uma estrela anã a cada 33 dias. Possui cerca de 2,6 vezes o raio da Terra e 8,6 vezes sua massa, com uma temperatura em torno de -18°C, localizado dentro da zona habitável de sua estrela, isto é, a faixa de distância para que exista água líquida na superfície. Em 2021, o astrofísico Nikky Madhusudhan e sua equipe propuseram uma hipótese sobre a vida, uma nova categoria teórica de planetas habitáveis que possuem essas características, chamados de “mundos hyceanos” (do inglês hydrogen + ocean), no caso, planetas contendo um oceano sob uma atmosfera rica em hidrogênio, que funcionaria como um cobertor, aprisionando calor o suficiente para manter o oceano líquido. Segundo essa hipótese, o K2-18b seria um dos mais promissores candidatos conhecidos para abrigar vida extraterrestre.
Assim, houve um primeiro resultado promissor em setembro de 2023, quando o JWST detectou na atmosfera do planeta: metano, dióxido de carbono, moléculas que contém os elementos mais frequentes na constituição dos corpos dos seres vivos que conhecemos, e o mais curioso: um fraco sinal de uma terceira molécula chamada de sulfeto de dimetila, ou DMS. Mas por que esse último detalhe é tão relevante? Na Terra, o DMS é produzido pelo fitoplâncton, um conjunto de seres vivos, na maioria microscópicos que vivem nas camadas superficiais do oceano. Ou seja, sua detecção em outro planeta seria uma evidência química da atividade de seres vivos. Em abril de 2025, o registro foi confirmado, desta vez através de outro instrumento do telescópio, mais sensível ao infravermelho médio, que também anunciou a detecção do DMS. Diante da importância da descoberta, entre julho e outubro de 2025, ao menos cinco novos grupos de pesquisa (incluindo equipes da Universidade de Oxford, da NASA e do MIT) resolveram analisar os dados obtidos pelo JWST e chegaram a conclusões diferentes das iniciais. Um dos grupos demonstrou que os mesmos resultados nos dados do infravermelho médio poderiam ser resultantes de ruídos da medição. Assim como outro grupo concluiu que, quando todos os dados do telescópio são analisados em conjunto, o sinal do DMS desaparece.
Mas afinal, tem ou não tem DMS no K2-18b? Para entendermos melhor, digamos que detectar moléculas em exoplanetas é como tentar identificar com o olfato o perfume de alguém sentado do outro lado de um estádio lotado. O JWST utiliza a chamada espectroscopia de trânsito – quando o planeta passa em frente à sua estrela, parte da luz estelar atravessa sua atmosfera, e cada molécula presente captura comprimentos de onda específicos da luz, deixando uma espécie de impressão digital química. O problema é que diferentes moléculas têm impressões parecidas, e o ruído dos instrumentos, principalmente no infravermelho médio pode acabar confundindo esse sinal.
Além disso, por muito tempo o DMS era considerado resultado exclusivo da atividade de seres vivos, só que em 2025, uma astroquímica detectou DMS em um cometa e em uma nuvem molecular interestelar, ambientes onde não há vida, indicando que processos puramente químicos também podem produzir essa molécula. Pode parecer frustrante, mas é exatamente assim que a ciência funciona: hipóteses ousadas, dados analisados por múltiplos grupos e conclusões sendo testadas sob diferentes óticas, o que permite que sejam refutadas ou refinadas.
O que você acha? Estamos em uma corrida tecnológica para expandir nossos limites e permitir a confirmação oficial da existência de vida fora da Terra? Você acha que chegaremos lá? Como você se sentiria sabendo que está sendo acompanhado pelo universo?
Fontes:
Madhusudhan, N. et al. (2023). Carbon-bearing Molecules in a Possible Hycean Atmosphere. The Astrophysical Journal Letters. https://iopscience.iop.org/article/10.3847/2041-8213/acf577
Madhusudhan, N. et al. (2025). New Constraints on DMS and DMDS in the Atmosphere of K2-18 b from JWST MIRI. The Astrophysical Journal Letters. https://iopscience.iop.org/article/10.3847/2041-8213/adc1c8
Luque, R. et al. (2025). A Comprehensive Reanalysis of K2-18 b’s JWST NIRISS+NIRSpec Transmission Spectrum. https://ora.ox.ac.uk/objects/uuid:a173435e-bb65-4f1c-b711-608ee9b21de4
Welbanks, L. et al. (2025). K2-18b Does Not Meet the Standards of Evidence for Life. https://escholarship.org/content/qt9w95v4ff/qt9w95v4ff.pdf
Insufficient evidence for DMS and DMDS in the atmosphere of K2-18 b (2025). Astronomy & Astrophysics. https://www.aanda.org/articles/aa/full_html/2025/08/aa55580-25/aa55580-25.html
University of Cambridge (2025). Strongest hints yet of biological activity outside the solar system. https://www.cam.ac.uk/stories/strongest-hints-of-biological-activity
Astronomy.com (2025). Signs of life on K2-18 b revisited in new NASA study. https://www.astronomy.com/science/new-study-revisits-signs-of-life-on-k2-18-b/
Britannica (2026). K2-18b – Life, Distance, Temperature & Facts. https://www.britannica.com/place/K2-18b
Wikipedia – K2-18b. https://en.wikipedia.org/wiki/K2-18


