Sanitizantes vs bactérias: lavou tá limpo! (V.9, N.5, P.4, 2026)

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Tempo de leitura: 4 minutos
#acessibilidade: Imagem apresenta duas mãos, cobertas com luvas azuis, aplicando detergente em uma esponja de cozinha. 

Esse texto foi escrito para você, leitor ou leitora que costuma se perder em pensamentos enquanto lava a louça e hoje se viu pensando: será que passei meses correndo risco, enquanto a cozinha brilhava? Como pode? Bom, primeiro, precisamos falar de limpeza. Hoje o que é conhecimento popularmente difundido, já foi alvo de bastante discussão: a importância de lavar as mãos e higienizar corretamente instrumentos médicos.

A peste bubônica apareceu no Mediterrâneo aproximadamente no ano 542, onde causou uma gigantesca epidemia que matou milhões de pessoas e, em 1347, a doença invadiu a Europa. Estima-se que dezenas de milhões de pessoas tenham morrido nesta e em sucessivas ondas epidêmicas nos 300 anos seguintes. A população judaica foi um dos grupos que escapou da devastação, principalmente devido às suas leis sanitárias rígidas. Além disso, os judeus que caíam doentes eram tratados com ervas, ao contrário do resto da população que era submetida a extensivas sangrias com objetos sem assepsia.

No século XIX, Ignaz Philipp Semmelweis (1818-1865) propôs uma correlação entre as necrópsias de cadáveres com causa mortis de doenças infecciosas e surtos epidêmicos de infecções puerperais, uma vez que as necrópsias eram realizadas sem a posterior higienização das mãos. Quando Semmelweis tentou conscientizar as pessoas da importância de lavar as mãos, foi ridicularizado até enlouquecer e ser internado num manicômio, onde, ironicamente, foi vítima fatal da mesma infecção que estudara. Em 1865, Joseph Lister (1827-1912), continuando os trabalhos de Microbiologia de Louis Pasteur (1822-1895) e Semmelweis, iniciou seus estudos no desenvolvimento de medidas assépticas que são utilizadas até hoje em cirurgias.

Mas por que lavar as mãos ou higienizar os objetos evita infecções e contaminações? Os chamados agentes sanitizantes (e até os materiais de limpeza de uso caseiro) conseguem interagir com as camadas mais externas da célula bacteriana e perturbar a sua estrutura, que pode ser vista na figura 1.

Imagem2 - Sanitizantes vs bactérias: lavou tá limpo! (V.9, N.5, P.4, 2026)
Figura 1: Estrutura de uma célula bacteriana de vida livre. Figura criada pela IA generativa Gemini.

As camadas mais externas da bactéria: parede celular e membrana externa são formadas por polissacarídeos (açúcares complexos); peptideoglicanos, que são uma mistura de peptídeos (sequências de aminoácidos) e açúcares; e lipídeos (gordura), respectivamente. Os lipídeos e os peptideoglicanos são emulsificados e desnaturados diretamente por sanitizantes do tipo detergentes e sabões, pois estes interagem simultaneamente com a água e com os lipídeos e peptídeos presentes na superfície das bactérias. Como consequência, a célula bacteriana se desestrutura, tornando a vida da bactéria inviável. Se isso é verdade, por que então, recentemente, a ANVISA autuou uma famosa fabricante de produtos de limpeza por contaminação por bactérias?

O caso em questão, segundo o órgão federal de fiscalização reporta, é uma recorrência de uma autuação ocorrida em novembro de 2025, onde amostras de produtos e de maquinários de produção estavam contaminados com Pseudomonas aeruginosa. A importância desta bactéria para a Saúde Pública pode ser encontrada no texto ESKAPE – o mundo fantástico das superbactérias.

Para a nossa discussão aqui, o que importa saber é que os sanitizantes normalmente reduzem o número de bactérias, mas sem eliminá-las completamente. A eliminação de bactérias acontece através de desinfetantes e esterilizantes mais fortes, que são produtos utilizados em ambientes como salas cirúrgicas, ou na limpeza pesada da cozinha. Além disso, P. aeruginosa possui em sua superfície além da membrana celular lipídica, e da parede celular com um lipopolissacarídeo,, também uma cápsula polissacarídica (açúcares complexos) que as recobre. Essa cápsula é um importante fator de virulência que protege a bactéria de agressões ambientais, de efetores imunológicos do hospedeiro – quando a bactéria está colonizando ou circulando em órgãos do hospedeiro – e, ainda, ajuda a bactéria a se agregar com outras unidades bacterianas formando o que se conhece como biofilmes.

Biofilmes são comunidades de microrganismos que podem ser formados por bactérias somente, ou em conjunto com fungos, funcionando como se fossem um organismo multicelular. Biofilmes bacterianos são comumente formados por bactérias resistentes a antibióticos, sejam aquelas infectando hospedeiros, recobrindo superfícies de instrumentos hospitalares como catéteres e respiradores, ou ainda crescendo em soluções, como no seu lava-louças e até em desinfetantes hospitalares.

Sendo assim, ainda que os sanitizantes tenham ação contra bactérias, os processos industriais precisam ser monitorados para evitar contaminações nos produtos que chegam ao mercado e do mercado, à sua cozinha. Para saber se o frasco que você comprou contém detergente contaminado ou não, seria necessário analisar um a um, o que é inviável. Mas o risco é real. A partir daí, duas opções: matar a sede com conhecimento, ou viver de emoção bebendo do gargalo!

Fontes:

Black, J.G. Scope and History of Microbiology. In: Microbiology – Principles and explorations. EUA: Prentice Hall, 4th edition, 1999. p. 1-18.

Boechat, J. e Gomes, H. (COC/Fiocruz). Agência Fiocruz: Ignaz Semmelweis: as lições que a história da lavagem das mãos ensina. Publicado em: 13/04/2020. Disponível em: https://agencia.fiocruz.br/ignaz-semmelweis-licoes-que-historia-da-lavagem-das-maos-ensina

Franklin, M.J.; David E. Nivens, D.E.; Weadge, J.T. e Howell, P.L. Biosynthesis of the Pseudomonas aeruginosa Extracellular Polysaccharides, Alginate, Pel, and Psl. Front. Microbiol., 22 August 2011, doi: https://doi.org/10.3389/fmicb.2011.00167

Madigan, M.T.; Martinko, J.M. e Parker, J. Estrutura/função celular. In: Microbiologia de Brock. Pearson – EUA: Prentice Hall, 10a edição, 2004. p. 81-82.

Saiba mais:

CBEIH Pesquisa e Desenvolvimento. Biofilmes: o que são? quais problemas eles causam?, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vK5ZSfIxF9c

Indeba Química – Soluções em Limpeza. Sanitizantes: o que é, tipos e mais!, disponível em: https://www.indeba.com.br/sanitizantes-o-que-e-tipos-e-mais/

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