Nem só de gols vive o futebol: a ciência por trás do jogo (V.9, N.6, P.3, 2026)

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Tempo de leitura: 5 minutos
#acessibilidade: A imagem apresenta uma bola de futebol na posição de escanteio de um capo, coberto por grama verde e delimitado por linhas brancas.

Texto escrito pela colaboradora Giovanna Torres dos Santos

Quando a bola entra no gol nos minutos finais de uma partida, o lance parece fruto de pura inspiração. No entanto, por trás desse momento decisivo, existe uma sequência de eventos governados por princípios matemáticos e físicos bem definidos. O futebol, embora imprevisível à primeira vista, funciona como um sistema complexo no qual números, probabilidades e leis do movimento influenciam constantemente o que acontece em campo (e fora dele).

A matemática começa a atuar antes mesmo da bola ser chutada. A posição do jogador em relação ao gol cria um problema geométrico clássico: a relação entre distância e ângulo. O gol pode ser visto como um segmento de reta limitado pelas traves, e o atacante enxerga esse segmento sob um determinado ângulo. Quanto maior esse ângulo, maior a “abertura” disponível para a bola passar. À medida que o jogador se afasta ou se desloca para as laterais do campo, este ângulo diminui rapidamente, reduzindo a probabilidade de finalização bem-sucedida. Por isso, as jogadas que levam o atacante para regiões centrais e próximas ao gol são tão eficientes do ponto de vista matemático.

No instante do chute, a física assume o controle. A bola passa a se comportar como um projétil, descrevendo no ar uma curva parecida com um arco. De forma simplificada, essa ideia pode ser representada pela seguinte relação:

y ≈ V0 ⋅ θ – g

Nessa expressão, y representa a trajetória da bola, v0 ​ indica a força inicial do chute, θ é o ângulo com que a bola sai do pé e g simboliza a gravidade, que puxa a bola para baixo durante todo o percurso. A equação não serve para cálculos exatos, mas ajuda a visualizar o essencial: a trajetória do chute nasce do equilíbrio entre força, direção e gravidade.

No futebol real, porém, a situação é mais rica do que essa fórmula sugere. A resistência do ar atua como um freio invisível, diminuindo a velocidade da bola ao longo do caminho. Além disso, quando o jogador imprime rotação à bola, surge uma força lateral que a empurra para o lado. Esse fenômeno, conhecido como efeito Magnus, é o responsável pelas curvas impressionantes em cobranças de falta. 

Um exemplo clássico desse efeito é a famosa cobrança de falta de Roberto Carlos, na qual a bola descreve uma trajetória altamente curva antes de entrar no gol. Quanto maior a velocidade e o giro da bola, mais intensa será essa força. Por isso, pequenas diferenças no ponto de contato do pé ou na intensidade do chute podem produzir trajetórias completamente distintas.

bola - Nem só de gols vive o futebol: a ciência por trás do jogo (V.9, N.6, P.3, 2026)

Essa sensibilidade a pequenas variações é uma das razões pelas quais o futebol parece tão imprevisível. Sistemas como esse, nos quais mudanças mínimas geram grandes efeitos, são estudados pela matemática dos sistemas complexos. No campo, isso se traduz em bolas que passam milímetros ao lado da trave ou em gols que parecem desafiar qualquer explicação simples.

Com o avanço da tecnologia, a matemática passou a atuar de forma ainda mais explícita por meio da estatística e da ciência de dados. Cada passe, finalização e deslocamento pode ser quantificado. A partir dessas informações surgiram métricas como o Expected Goals (xG), que estima a probabilidade real de um chute virar gol com base em fatores como distância, ângulo, tipo de assistência e pressão defensiva. Assim, o desempenho de um time pode ser analisado para além do placar final, revelando quando uma vitória foi merecida ou quando uma derrota escondeu um bom jogo.

 quadra - Nem só de gols vive o futebol: a ciência por trás do jogo (V.9, N.6, P.3, 2026)

A organização coletiva das equipes também pode ser traduzida em números. Utilizando conceitos da teoria dos grafos – área da matemática que estuda estruturas formadas por nós (vértices) e conexões (arestas) – é possível modelar o jogo: os jogadores são representados como vértices, enquanto os passes realizados entre eles correspondem às arestas. Esse tipo de análise revela padrões táticos, identifica quem concentra o jogo e mostra como a bola circula pelo campo. Equipes com redes de passes mais distribuídas tendem a ser menos previsíveis e mais difíceis de marcar.

Assim, dentro de campo, a matemática permite compreender e quantificar o jogo em seus aspectos táticos e técnicos.

Mesmo fora das quatro linhas, a matemática continua sendo decisiva. Modelos matemáticos ajudam a controlar a carga de treino e o tempo de recuperação dos atletas. O risco de lesão não cresce de forma linear: ele aumenta rapidamente quando o corpo é submetido a excessos repetidos. Por isso, clubes utilizam algoritmos para equilibrar desempenho e saúde ao longo da temporada.

No fim, a matemática não elimina a emoção do futebol – ela ajuda a entendê-la. O jogo permanece apaixonante porque combina leis físicas rigorosas com decisões humanas imprevisíveis. Cada partida é o resultado da interação entre ordem e acaso, cálculo e intuição. Entender a matemática por trás do futebol não tira sua magia; revela apenas que, mesmo nos lances mais improváveis, há números trabalhando silenciosamente antes do grito de gol.

Fontes:

AMRIT. A Good, Hard Look at Expected Goals [xG] – The Away End. Disponível em: <https://theawayend.co/2018/12/31/a-good-hard-look-at-expected-goals-xg/>. Acesso em: 19 jan. 2026.

ANDERSON, Chris; SALLY, David. Os números do jogo: por que tudo o que você sabe sobre futebol está errado. Tradução de Alexandre Matias. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.

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CARLING, Chris; REILLY, Thomas; WILLIAMS, A. Mark. Performance assessment for field sports. Londres: Routledge, 2009.

HELERBROCK, Rafael. “Como a bola de futebol faz curva?”; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/fisica/como-bola-futebol-faz-curva.htm. Acesso em 19 de janeiro de 2026.

LEES, Adrian. Science and the major racket sports: a review. Journal of Sports Sciences, Londres, v. 21, n. 9, p. 707–732, 2003.

MCGARRY, Tim et al. Sport competition as a dynamical self-organizing system. Journal of Sports Sciences, Londres, v. 20, n. 10, p. 771–781, 2002.

REIN, Robert; RAABE, Dominik; MEMMERT, Daniel. Which pass is better? Novel approaches to assess passing effectiveness in elite soccer. Human Movement Science, Amsterdã, v. 55, p. 172–181, 2017.

Para saber mais:

Vídeo BOLAS CURVAS NO FUTEBOL – O QUE É EFEITO MAGNUS? (#UaiFísica 27) no canal Uai Física no YouTube

https://categoriacanal.com/expected-goals-xg/

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