#acessibilidade:A imagem mostra duas cenas contrastantes. À esquerda, uma pessoa em um espaço escuro e apertado, com postura encolhida, expressa desconforto. À direita, a mesma pessoa em um ambiente amplo e iluminado aparece relaxada. A imagem simboliza como o ambiente pode influenciar nossas emoções e comportamento.
Texto escrito pela colaboradora Rafaella Ferreira Prado Tomassetti
Você já entrou em um lugar e, mesmo sem ninguém falar nada ou te olhar de forma estranha, sentiu vontade de sair? Uma sensação sem nenhuma explicação lógica? Esse tipo de vivência é mais comum do que parece e pode ser compreendida através da ótica da Psicologia Ambiental, uma área do conhecimento que poucos ainda conhecem.
A Psicologia Ambiental propõe que o comportamento humano não é moldado apenas por fatores internos, como pensamentos e emoções, mas também pelo espaço físico e social em que estamos inseridos
A ideia é simples: os ambientes não são neutros e eles moldam o nosso comportamento. Uma sala apertada, uma escada mal iluminada, um arranha-céu, cada lugar nos traz sentimentos distintos. E mais: os lugares carregam regras invisíveis, expectativas e símbolos que dizem, mesmo sem falar, como devemos agir ali.
No entanto, o impacto do espaço não é igual para todo mundo. O que sentimos depende do papel que ocupamos naquele espaço. É isso que a teoria do Papel Ambiental diz: o papel que a pessoa desempenha em determinado ambiente influencia sua percepção daquele lugar. Isso significa que o mesmo lugar pode parecer acolhedor para um e opressor para outro. Um hospital, por exemplo, pode ser um ambiente de rotina para um médico, mas de medo e tensão para uma pessoa doente.
A partir daqui podemos conectar com as análises de Michel Foucault. O filósofo francês investigou como certos espaços, como escolas, hospitais e prisões, são construídos para moldar comportamentos. Cada detalhe nesses lugares é pensado para manter vigilância e ordem: o posicionamento das cadeiras, as filas, os horários rígidos. Nada é por acaso. Esses espaços foram desenhados para educar, corrigir ou controlar, mesmo sem parecer que estão fazendo isso.
A conexão entre o papel que ocupamos e o tipo de espaço em que estamos pode explicar muito do nosso desconforto. Um aluno pode se sentir vigiado e preso em uma sala de aula organizada demais. Um funcionário pode se sentir engessado em um escritório cheio de regras sutis sobre como se vestir, sentar ou falar. O espaço “fala”, mesmo quando está em silêncio.
Com o tempo, porém, alguns lugares deixam de parecer estranhos. Isso porque nós criamos laços emocionais com eles. Segundo pesquisadores, todos os ambientes provocam algum tipo de reação, mesmo que sutil. Essa resposta emocional influencia decisões simples, como querer voltar (ou não) a um determinado lugar. E, aos poucos, podemos chegar a desenvolver um sentimento de pertencimento: o enraizamento, quando o espaço se torna parte de quem somos.
Sentir-se desconectado de um ambiente não significa que há algo de errado com você. Pode ser só o seu corpo reagindo a um espaço que ainda não virou “seu”. E tudo bem: às vezes, é só uma questão de tempo — ou de entender que, para certos lugares, a gente nem precisa voltar.
Afinal, nossos papéis mudam com o tempo. Um ambiente pode causar incômodo em uma fase da vida e acolhimento em outra. O lugar é o mesmo — o que muda é a forma como nos posicionamos nele. Entender isso ajuda a perceber que, às vezes, o que está causando estranheza não é “frescura”. É só o corpo reagindo a um espaço que não faz sentido para quem você é (ou quem você precisa ser) naquele momento.
Fontes:
CAVALCANTE, Sylvia; ELALI, Gleice A. (Orgs.). Psicologia ambiental: conceitos para a leitura da relação pessoa-ambiente. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018.
MELO, R. G. C. De. Psicologia ambiental: uma nova abordagem da psicologia. Psicologia USP, [S. L.], v. 2, n. 1-2, p. 85-103, 1991. DOI: 10.1590/S1678-51771991000100008.
Disponível em:
https://www.revistas.usp.br/psicousp/article/view/34445. Acesso em: 20 ago. 2023.
NASCIMENTO, Cristiano. O edifício como espaço analítico: uma discussão das idéias de foucault sobre a arquitetura. 2008. Disponível em:
https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.093/168. Acesso em: 27 jul. 2023.
HIGUCHI, Maria Inês Gasparetto; KUHNEN, Ariane; PATO, Claudia. Psicologia Ambiental em Contextos Urbanos. Florianópolis: Edições Bosque Ufsc, 2019. 191p. Disponível em:
https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/196574/Livro%20Psicologia%20Ambiental%20em%20Contextos%20Urbanos.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 25 abr. 2023.


