#acessibilidade: Desenho de uma floresta fictícia, com várias árvores e um rio passando pelo centro. No canto superior esquerdo temos um tucano em um galho, logo abaixo, um sapo sobre uma folha e mais abaixo um boto no rio. Já no canto superior direito temos uma onça pintada e um grilo em um tronco de árvore caído e em baixo há um cientista (homem branco, de cabelo castanho curto) com microfones e gravadores de som, captando os sons dos animais. Imagem gerada pela Inteligência Artificial gemini.google.
Texto escrito pela colaboradora Rubia M. Cacozze e Vanessa Verdade
Se você gosta de música e conhece nosso blog, já deve ter lido o texto que publicamos há algum tempo sobre paisagem sonora. Pois bem, a bioacústica é a área que estuda os sons produzidos por seres vivos, sejam animais ou plantas (sim! Saiba mais sobre coisas incríveis que plantas fazem aqui), que são parte da paisagem sonora. A comunicação através de sons é um dos meios mais utilizados por nós, seres humanos, para compreendermos e compartilharmos nossas observações sobre o mundo ao nosso redor. E não é novidade que alguns animais também sejam capazes de se comunicar produzindo sons. Cada som pode ter um significado, facilitando interações sociais e colaborando para a sobrevivência dos indivíduos da mesma ou até de outras espécies. Alguns sons de alarme, por exemplo, podem ser aprendidos por indivíduos de espécies que convivem na mesma área e o alerta de uma, acaba servindo de aviso para as demais.
Certamente, você já escutou o canto dos pássaros, o coaxar de um sapo, cavalos relinchando ou o cricrilar dos grilos. Para a maioria das pessoas, ouvir e identificar sons pode remeter a paisagens bucólicas e pacíficas, ou a um ambiente estressante e indicar perigo iminente. Identificar corretamente e antecipadamente o som de alguns animais pode evitar problemas. Imagine estar em um barco e ouvir um macho de aligátor vocalizando? Ou estar caminhando no pasto e ouvir o chocalho de uma cascavel? Sons desconhecidos podem gerar medo ou curiosidade. Já ouviu a vocalização dos macacos do gênero Allouatta, que aqui no Brasil conhecemos como bugio? Dá vontade de sair correndo, mas é só um macaco inofensivo. No interior, está cheio de homem adulto que jura que ouviu assombração voltando à noite para casa, mas não era fantasma, era a mãe-da-lua (ou Urutau, Nyctibius griseus), uma ave noturna que pia alto e parece um UUU-UHUUU-UH. Alguns animais produzem uma variedade inesperada de sons, como por exemplo as Ariranhas (Pteronura brasiliensis), que apesar do nome incomum, são mamíferos semiaquáticos que latem, gritam e murmuram (são 22 tipos diferentes de sons registrados). No Brasil, também temos a Araponga (Procnias nudicollis), uma pequena ave, que é o animal que emite o som mais alto entre todos os que existem no planeta. Seu canto pode chegar até 125 dB e a gente deve ficar feliz ao ouvi-lo, pois o pio da araponga é indicativo de mata bem preservada.
Animais podem produzir sons de diversas maneiras, normalmente através de vibração e amplificação em estruturas especializadas, como por exemplo nossas cordas vocais, o aparato laríngeo e o saco vocal dos anuros, a siringe das aves canoras, a bexiga natatória dos peixes, as membranas das cigarras, e as asperezas nas asas de grilos. Através dos sons, é possível demarcar território, manter intrusos afastados, atrair parceiros para reprodução, ou até mesmo compreender o ambiente e capturar presas (se considerarmos a habilidade de ecolocalização de golfinhos e morcegos). Estudar os sons que vem da natureza nos ajuda a compreender a saúde dos ecossistemas, fazer monitoramento do impacto da ação humana e, inclusive, identificar espécies raras.
Na bioacústica, cientistas realizam gravações e análises através de ferramentas que captam as ondas sonoras, envolvendo física, biologia e biofísica. É uma área que tem sido considerada cada vez mais relevante, especialmente quando consideramos a possibilidade de monitoramento passivo, que é aquele realizado por gravadores colocados em pontos fixos. Existe muita informação nessas gravações. Podemos identificar espécies através da vocalização, entender como essas vocalizações variam com a morfologia do emissor, montar uma lista de espécies de vários grupos de organismos, determinar períodos de atividade, números de indivíduos, sobreposições entre os sons, perceber interferências (como no caso de poluição sonora) e adaptações à vida em ambientes diferentes. Tudo isso pode parecer distante da nossa vida diária, mas se pensarmos bem, temos algumas impressões bastante intuitivas sobre os sons. Por exemplo, indivíduos maiores têm voz mais grave (grossa, de frequência baixa) e menores, têm voz mais aguda (fina, de frequência alta). Isso nem sempre é realidade, mas entre os anuros, por exemplo, é possível inferir características dos machos cantores pelo som, cantos complexos ou cantos mais graves, normalmente são emitidos por machos maiores. Sons mais graves ou mais agudos também podem estar relacionados com o ambiente. Por exemplo, o ruído dos riachos interfere na vocalização de anuros e a regra geral de que quanto maior o tamanho, mais grave o canto, não vale aqui. Sapos que vivem em riachos cantam em frequências mais altas (sons mais agudos) em relação ao esperado pelo seu tamanho, o que é considerado um resultado da seleção ao longo de gerações, já que cantos mais agudos sobressaem ao ruído dos riachos.
Falando em anuros, o coaxar dos sapos recebe o nome científico de canto de anúncio. É como se os machos estivessem anunciando que estão disponíveis para o acasalamento. As fêmeas escolhem o canto que mais lhes agrada e se aproximam. Assim, considerando que estamos em um país com uma das maiores diversidades de anuros no mundo, tem de tudo: sapo-martelo (Boana faber), rã-piadeira (Adenomera spp.) – quem sobe para o Bloco Tau, na UFABC em São Bernardo, no início da noite, escuta essa daqui, rã-cachorro (Physalaemus cuvieri), rã-carneiro (Boana albopunctata), rã-chorona (Physalaemus gracilis), tem até sapo que canta parecendo que está fazendo fiu-fiu (Leptodactylus fuscus). E acho que podemos parar por aqui, pois esse texto elevou cantadas a outro nível, não é mesmo?
Fontes:
ABREU, Augusto. Bioacústica. Disponível em: <https://www.portalsaofrancisco.com.br/biologia/bioacustica>. Acesso em: 1 maio. 2026.
ALMEIDA, Samara Bezerra. Estudo do comportamento territorial da ariranha (Pteronura brasiliensis, Carnivora: Mustelidae, Zimmermann 1780) no Parque Estadual do Cantão, Estado do Tocantins. 2015. Tese de Doutorado. Dissertação de Mestrado. Pós graduação em Ciências Biológicas-Comportamento e Biologia Animal da Universidade Federal de Juiz de Fora, MG. 2015. 95p. Acesso em: 2026-04-20.
ASSIS, Vania Regina de. Relação entre os níveis plasmáticos de corticosterona e testosterona no comportamento vocal e territorial no sapo martelo (Hypsiboas faber). 2010. Dissertação (Mestrado em Fisiologia Geral) – Instituto de Biociências, University of São Paulo, São Paulo, 2010. doi:10.11606/D.41.2010.tde-14022011-200502. Acesso em: 2026-04-21.
Bioacústica: A Ciência dos Sons Naturais. MinasBio Consultoria, 21 maio 2025. Disponível em: <https://www.minasbioconsultoria.com/post/bioac%C3%BAstica-a-ci%C3%AAncia-dos-sons-naturais>. Acesso em: 1 maio. 2026
COUTINHO, Flavio. O que é bioacústica e como ela ajuda na conservação da fauna? Disponível em: <https://www.mundoecologia.com.br/curiosidades/o-que-e-bioacustica-e-como-ela-ajuda-na-conservacao-da-fauna/>. Acesso em: 1 maio. 2026.
DA SILVEIRA, Evanildo. Conheça a ave brasileira que tem o canto mais alto de um animal já registrado. BBC, 21 out. 2019.
DOS SANTOS, Vanessa Sardinha. Ariranha. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.br/animais/ariranha.htm>. Acesso em: 1 maio. 2026.
Duellman and Trueb. 1994. Biology of Amphibians. The John Hopkins University Press, Baltimore and London.
Para saber mais:
SCHUCHMANN, Karl-L. et al. Os sons do Pantanal: um projeto de monitoramento acústico automatizado da biodiversidade. Boletim Informativo Sociedade Brasileira de Zoologia, v. 108, p. 11-12, 2014. Acesso em: 2026-04-21.
MAYER, Nicole Raupp. Sequência de ensino investigativo no estudo de anfíbios: uma proposta de utilização da bioacústica no Ensino Fundamental. 2025. Acesso em: 2026-04-21.


