(Português do Brasil) Entre o asfalto e a floresta: parques urbanos, refúgios de vida (V.8, N.11, P.1, 2025)

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#acessibilidade: Imagem de um grande lago margeado por vegetação nativa e uma ponte para pessoas, que o atravessa de um lado a outro. Parque Natural Municipal do Pedroso (foto Portal da prefeitura de Santo André)

Texto escrito pelas colaboradoras Natália Torello e Vanessa Verdade

Entre os dias 10 e 21 de novembro, o Brasil sediará a COP30 (leia). Líderes mundiais, cientistas e a sociedade civil vão discutir e encontrar caminhos para enfrentar  a crise climática, proteger as florestas e preservar a biodiversidade. As reuniões acontecerão em Belém do Pará, cidade considerada a porta de entrada para a região Amazônica e, não à toa, a preservação da floresta amazônica e dos povos originários que a habitam estará no centro das discussões.

Não há como negar a importância da Floresta Amazônica e seu papel na manutenção do equilíbrio climático mundial e da América do Sul. A Floresta Amazônica deve receber a merecida luz dos holofotes, mas não podemos ofuscar outras florestas de nosso território. Essas são tão importantes quanto para a manutenção da biodiversidade tropical e são vítimas mais antigas da ocupação de espaço. Considerando florestas tropicais úmidas, a Mata Atlântica, no leste do Brasil, encontra-se em uma das regiões mais densamente povoadas da América do Sul e passou por um processo de ocupação que levou à perda de cerca de 80% da sua vegetação original. Abriga enorme diversidade animal e vegetal e é considerada um dos principais hot spots para conservação no mundo, sendo mantenedora dos diversos componentes da biodiversidade para muitos grupos de organismos. 

A Mata Atlântica está, em geral, próxima à população e muitos dos fragmentos remanescentes de floresta fazem parte de parques urbanos ou áreas verdes nas proximidades das cidades, onde a biodiversidade pulsa e resiste à intensa urbanização. Mais do que espaços verdes para lazer, os parques atuam como “ilhas de vida” dentro do ambiente urbano, oferecendo abrigo e alimento para diversas espécies. Recentemente, por exemplo, pesquisadores redescobriram no Parque da Previdência, na região oeste do município de São Paulo, a cobra-cega Luetkenotyphlus brasiliensis, um anfíbio sem patas, após mais de 60 anos desde o último registro. Além disso, quando os fragmentos estão conectados entre si por áreas verdes e cursos d’água, formam corredores ecológicos — rotas que permitem o deslocamento dos animais entre fragmentos de vegetação. Esses corredores ajudam a manter populações viáveis e a troca genética entre elas, prevenindo o isolamento e a perda de diversidade biológica. Os parques urbanos da região metropolitana de São Paulo, por exemplo, incluindo o Grande ABC, de onde escrevemos esse texto, são parte das áreas das Reserva da Biosfera da Mata Atlântica e Reserva da Biosfera do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo (respectivamente, RBMA e RBCV). Estima-se que cerca de 1.300 espécies de plantas, 300 espécies de aves, 50 mamíferos, 60 répteis, 80 anfíbios, 15 peixes e centenas de lepidópteros (mariposas e borboletas), vivam nessa região, muitas delas, espécies ameaçadas de extinção.

Para a ciência, esses ambientes são laboratórios a céu aberto. Pesquisadores têm utilizado os parques urbanos para monitorar espécies e compreender como elas respondem às mudanças impostas pela urbanização. Esse conhecimento é essencial para planejar cidades mais sustentáveis e promover ações de conservação mais eficazes. E todos podem contribuir! A ciência cidadã, por exemplo, é uma poderosa ferramenta para aproximar a população da pesquisa científica e da conservação. Fotografar e registrar animais e plantas observados nos parques em plataformas como o iNaturalist ou o WikiAves, por exemplo, ajuda cientistas a mapear a distribuição das espécies e monitorar mudanças nos ecossistemas urbanos. Além disso, ações simples como evitar o descarte de lixo nas trilhas, respeitar os limites das áreas de preservação e valorizar as iniciativas locais de educação ambiental geram sensibilização ambiental e fazem grande diferença, já que a tendência é conservar o que nos desperta conexão emocional.

A importância dos parques não se limita à fauna e à flora. Áreas florestadas também absorvem carbono, contribuem para a proteção do solo, contendo erosão e deslizamento de terras e de recursos hídricos, mantendo a umidade em nascentes, cursos d’água e reservatórios subterrâneos. A presença desses ecossistemas nas cidades é crucial para a regulação do clima, atenuando eventos extremos, como as ondas de calor, responsáveis por cerca de 13 mil óbitos anuais na América Latina. Além disso, parques e áreas verdes têm impacto direto sobre o bem-estar humano. Caminhar por trilhas arborizadas, ouvir o canto das aves ou dos sapos após a chuva desperta sensações que reduzem o estresse, melhoram o humor e fortalecem o senso de pertencimento ao ambiente natural. Assim, conservar a biodiversidade urbana é também cuidar da qualidade de vida das pessoas. A presença e o planejamento adequado na distribuição de parques urbanos mostram que a conservação não precisa estar distante: ela pode acontecer no caminho para o trabalho, no fim de semana em família ou em uma simples caminhada. São espaços onde a cidade e a natureza se encontram, e onde cada pessoa pode ser parte ativa na construção de um futuro mais verde e biodiverso.

Fontes: 

Alexandrino et al. 2025. O cenário acadêmico brasileiro ao aplicar ciência cidadã em pesquisas ecológicas. Estudos Avançados 39: 1-20. https://doi.org/10.1590/s0103-4014.202539114.015

Myers et al. 2000. Biodiversity hotspots for conservation priorities. Nature 403 (6772): 853–858. https://doi.org/10.1038/35002501

TORELLO-VIERA et al. 2025. Rediscovering a caecilian in the largest megalopolis of South America: an unexpectedly abundant population of Luetkenotyphlus brasiliensis. Herpetological Journal.

Rossa-Feres et al. 2017. Anfíbios da Mata Atlântica: lista de espécies, histórico dos estudos, biologia e conservação. In: Monteiro-Filho & Conte (Eds). Revisões em Zoologia: Mata Atlântica. Editora UFPR, Curitiba, 237-314.

Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. 2022. Pesquisa científica no Parque Nascentes de Paranapiacaba. https://rbma.org.br/n/cinebiosfera/pesquisa-cientifica-no-parque-nascentes-de-paranapiacaba/

Para saber mais:

RESERVA DA BIOSFERA DA MATA ATLÂNTICA

SEMASA. Meio Ambiente e Mudança Climática. Portal da Secretaria do meio ambiente de Santo André

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