(Português do Brasil) E se cair um raio em um avião? (V.9, N.2, P.1, 2026)

Facebook Twitter Instagram YouTube Spotify WhatsApp

Disculpa, pero esta entrada está disponible sólo en Português do Brasil. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.

Tiempo de leer: 6 minutos

Disculpa, pero esta entrada está disponible sólo en Português do Brasil. For the sake of viewer convenience, the content is shown below in the alternative language. You may click the link to switch the active language.

#acessibilidade: Foto de baixo ângulo de um avião descendo de um céu nublado. Fonte: Freepik

Texto escrito pela colaboradora Lívia Souza

Você já se perguntou o que acontece se um raio atinge um avião em pleno voo? Para muitos passageiros, o simples estalo de trovão já é suficiente para disparar a imaginação: “E se isso afetar a aeronave?” A verdade é que, todos os dias, dezenas de aviões pelo mundo são atingidos por descargas elétricas. Estima-se que, em média, cada aeronave comercial receba pelo menos um raio por ano. E, ainda assim, voar continua sendo o meio de transporte mais seguro.

A física por trás do raio

Dentro das nuvens de tempestades, o movimento intenso do ar, chamado de convecção térmica, faz com que partículas de gelo colidam entre si. Nesses choques, ocorre uma transferência de elétrons, separando cargas positivas e negativas em diferentes regiões da nuvem. Esse processo cria um campo elétrico, e quando a tensão acumulada se torna maior do que a resistência natural do ar, acontece a descarga elétrica. Esse raio pode acontecer de três formas principais: entre a nuvem e o solo (1), dentro da própria nuvem (2) ou entre duas nuvens diferentes (3), como mostra na figura a seguir.

raio1 - (Português do Brasil) E se cair um raio em um avião? (V.9, N.2, P.1, 2026)
Figura 1: Tipos de raios comumente encontrados. Fonte: https://safetyfirst.airbus.com/lightning-strikes/ Acesso: 30/09/2025

O que enxergamos como um “raio único” na verdade é formado por várias descargas sucessivas. O processo começa com uma coluna de ar ionizado, chamada de “líder”, que geralmente passa da região negativa da nuvem em direção à área positiva. No caminho, ramificações menores, os líderes secundários, também se formam. Quando esses canais se encontram, a corrente elétrica flui de forma violenta para neutralizar as cargas opostas.

O resultado é um clarão que pode durar frações de segundo, mas cuja intensidade pode atingir 200 mil amperes e a temperatura dentro do canal de descarga pode ultrapassar 30 mil graus Celsius, cinco vezes mais quente que a superfície do Sol.

raio2 - (Português do Brasil) E se cair um raio em um avião? (V.9, N.2, P.1, 2026)
Figura 2: Início do raio. Fonte: https://safetyfirst.airbus.com/lightning-strikes/ Acesso: 30/09/2025

A física em como raios atingem aviões 

Curiosamente, estima-se que um avião deveria ser atingido por um raio apenas uma vez a cada mil anos. Mas, na realidade é bem diferente, em serviço, uma aeronave é atingida em média uma vez por ano. Essa discrepância é explicada pelo fato de que o avião não é apenas um alvo passivo, mas sim um indutor de descargas elétricas.

Quando uma nuvem carregada cria um campo elétrico intenso, a presença da aeronave pode iniciar o processo do raio. Se um líder elétrico começa a se formar próximo ao avião (1), líderes secundários partem das extremidades da aeronave, como nariz, pontas das asas e estabilizador vertical (2). Quando um desses líderes se conecta ao principal (3), o avião passa a fazer parte do canal de descarga. Em seguida, novos líderes se formam de outras extremidades em direção à Terra (4). Por fim, quando esses líderes se encontram com a região carregada positivamente no solo (5), o raio se completa em um clarão (6).

raio3 - (Português do Brasil) E se cair um raio em um avião? (V.9, N.2, P.1, 2026)
Figura 3: Como raios atingem aeronaves. Fonte: https://safetyfirst.airbus.com/lightning-strikes/ Acesso: 30/09/2025

Mas e como temos segurança no voo?

A explicação para essa segurança vem do princípio físico da Gaiola de Faraday. Quando uma descarga elétrica atinge uma estrutura condutora, os elétrons livres se movimentam e se reorganizam rapidamente, distribuindo-se apenas pela superfície externa. Isso acontece porque, em equilíbrio, a carga elétrica em um condutor tende a se repelir e ocupar a maior distância possível entre si. O resultado é que, no interior, o campo elétrico resultante é nulo.

Na prática, isso significa que qualquer pessoa ou equipamento dentro dessa estrutura fica protegido contra descargas elétricas e até contra campos eletromagnéticos externos.

Por esse motivo, a fuselagem da aeronave é projetada para atuar como um condutor contínuo. Em aviões metálicos, essa propriedade é natural. Já em aeronaves feitas de materiais compósitos, são adicionadas malhas condutoras, tiras metálicas e revestimentos específicos para assegurar a condução da corrente elétrica. Além disso, todos os elementos estruturais são conectados entre si por bonding leads ou fixadores condutores, garantindo a continuidade elétrica. Dessa forma, quando um raio atinge o avião, a corrente percorre a superfície externa até encontrar uma saída segura, geralmente pelas extremidades das asas ou pela cauda. Dentro da cabine, o campo elétrico permanece isolado, e passageiros e sistemas eletrônicos seguem protegidos.

Mas a explicação não acaba aí. Mesmo que a corrente principal seja conduzida pela fuselagem, o raio também gera campos eletromagnéticos capazes de induzir correntes em cabos e sistemas eletrônicos. Esse efeito, em teoria, poderia causar falhas. Para evitar esse risco, o avião conta com uma combinação de soluções cuidadosamente planejadas.

Um primeiro recurso é a redundância em sistemas críticos. Em outras palavras, funções vitais como comandos de voo e navegação não dependem de apenas um equipamento. Se um falhar, outro assume instantaneamente, mantendo tudo sob controle sem que o passageiro sequer perceba.

Além disso, existe a segregação física e elétrica dos cabos. Os chicotes que transportam sinais e energia não seguem o mesmo caminho pela aeronave, eles são distribuídos em trajetos diferentes. Assim, mesmo que um conjunto seja afetado por uma interferência, o outro permanece intacto.

Outro cuidado é a blindagem eletromagnética nos chicotes elétricos. Imagine os cabos como fios envolvidos por uma armadura protetora. Essa blindagem impede que ondas eletromagnéticas externas corrompam os sinais transmitidos, preservando a qualidade e a confiabilidade da comunicação interna.

Também estão presentes os dispositivos de proteção contra surtos, que funcionam como válvulas de escape para a eletricidade. Quando ocorre uma sobrecarga repentina, esses dispositivos desviam ou absorvem a energia extra antes que ela alcance sistemas sensíveis.

Por fim, entra em cena a inteligência dos próprios softwares de bordo. Eles são desenvolvidos com mecanismos capazes de detectar e corrigir dados corrompidos. Isso significa que, mesmo que uma interferência momentânea altere alguma informação, o sistema consegue recuperar a versão correta e continuar operando normalmente.

Essas camadas de proteção, estruturais, elétricas e digitais se somam ao planejamento operacional. Pilotos utilizam previsões meteorológicas, informações de tráfego aéreo e radares de bordo para identificar áreas de maior atividade elétrica. Em aeronaves modernas, certos radares contam até com funções específicas para prever descargas, ampliando a capacidade de evitar zonas perigosas.

Em conjunto, todos esses fatores asseguram que, mesmo sob a intensidade de um raio, a aeronave mantenha sua integridade estrutural, preserve a confiabilidade dos sistemas e garanta a segurança de todos a bordo.

Fontes:

https://safetyfirst.airbus.com/lightning-strikes/

https://aeroin.net/raios-o-que-acontece-com-aeronave/

Para saber mais:

https://www.youtube.com/watch?v=i-LCORFB860

https://youtube.com/shorts/WMBrDXIRT5A?si=ZjFqjiiPVXsxNNOP

Como o avião voa? (V.8, N.12, P.6, 2025)

Compartilhe: