#acessibilidade Mulher e duas crianças sentadas em posição de meditação, com olhos fechados e mãos apoiadas nos joelhos, em área externa urbana com mochilas e prédios ao fundo.
Ciências e Religiões geralmente são vistos como campos antagônicos. Quando se pensa nos dois em comum, a proposta (ou denúncia) é que estaríamos tentando encontrar Deus na ciência. Mas se trata realmente disso?
Desde que as técnicas para registrar a atividade do cérebro foram desenvolvidas (como a ressonância magnética ou a eletroencefalografia [EEG]), foi possível avaliar o que acontece no cérebro de uma pessoa quando esta está exercendo alguma atividade religiosa. Um dos exemplos de atividades, encontradas por Andrew Newberg, da Universidade da Pennsylvania (uma das referências da área), foi a ativação do lobo frontal, associado à concentração e foco, e uma redução na atividade do lobo parietal, relacionado a nossas sensações, tanto em rezas de freiras franciscanas como em monges budistas.
Algumas pessoas podem ter interpretações radicais sobre estes resultados. De um lado, os religiosos costumam tomá-los como uma prova de que experiências religiosas são reais ou que uma divindade teria criado o encéfalo de forma a possibilitar estas experiências. Enquanto isso, do outro lado, céticos os tomam como prova de que as divindades são “coisa da nossa cabeça”, muitas vezes associando-as a ilusões e danos neurológicos no processamento sensorial.
Ambas as interpretações costumam gerar repressão de um dos lados, seguidos, por vezes, de descrença nos estudos científicos ou desrespeito aos movimentos religiosos. Para evitar tais conflitos é preciso entender o que pode ou não ser concluído a partir de estudos assim.
Portanto, não é sobre entender a validade ou não dos credos das diferentes religiões, mas compreender o que acontece em nosso corpo quando nos propomos a estas atividades de contemplação.
O paranaense Jordan de Souza Medeiros nos dá uma comparação interessante para pensarmos sobre isso:
“Se colocássemos um indivíduo que está a comer uma maçã sob algum equipamento de neuroimagem, veríamos determinadas áreas cerebrais aumentarem a sua atividade. Deveríamos, a partir disso, concluir que a textura, a cor e o cheiro da maçã é menos real? De forma alguma. O mundo externo tal qual o experimentamos é uma construção.”
Assim, os dados obtidos em experimentos envolvendo essas práticas religiosas não podem provar ou não a existência de uma divindade, mas dizem algo sobre como estamos nos comportando diante do que pensamos ser o sagrado.
O foco nesta perspectiva também pode variar um pouco. Alguns pesquisadores podem procurar o que há de comum entre todas as práticas religiosas enquanto outros se preocupam com o impacto da religião na saúde.
Pesquisas sobre o hábito da yoga, da oração e da meditação, como mindfulness, têm ganhado espaço (inclusive na UFABC) por apresentarem melhorias na atenção e no bem estar emocional dos praticantes. Além da atividade neural, a frequência cardíaca e a pressão sanguínea são métricas observadas nestes estudos. Por envolver o estudo de estados mentais, não é incomum paralelos com uso de substâncias psicoativas e tratamentos de abstinência.
O estudo dos efeitos de práticas religiosas no cérebro, portanto, identifica quais os aspectos sensoriais, cognitivos, emocionais e sociais envolvidos nessas práticas, às vezes, estabelecendo proximidades entre diferentes manifestações religiosas. As pesquisas também podem contribuir de forma preventiva, mostrando consequências potencialmente negativas para a saúde de seus praticantes.
No Brasil, a neuroteologia, como é chamada, aparentemente tem sido pouco estudada. Dentre as religiões, o Budismo aparenta ter maior abertura para estes estudos, sendo ainda um terreno espinhoso para as demais religiões, seja por resistência dos religiosos ou pelo preconceito por parte da comunidade científica.
Enquanto manifestação social humana, as experiências religiosas são válidas de pesquisa científica. Mesmo sabendo, hoje, que Newton escreveu tratados de teologia e que grandes expoentes das ciências, como Einstein, conciliavam bem suas religiões com seus trabalhos científicos, ainda é um tabu falar sobre isso.
De toda forma, a pesquisa científica não deve (ou pelo menos não deveria) ir contra nenhuma manifestação religiosa, uma vez que esta é direito inegável de cada pessoa.
Fontes:
ARTEN, Thayná Laís de Souza. Neuroteologia: uma Relação Entre as Ciências e as Religiões. Revista de Ensino, Educação e Ciências Humanas, v. 23, n. 5, p. 703-706, 2022.
BATISTA, Leonardo Augusto. Neuroteologia: fundamentos e perspectivas. Dissertação de Mestrado. 2018.
CESCON, Everaldo. Neurociência e religião: as pesquisas neurológicas em torno da experiência religiosa. Estudos de religião, v. 25, n. 41, p. 77-96, 2011.
JOHNSON, George. God in the Dendrites: Can ‘Neurotheology’ Bridge the Gap Between Religion and Science? Slate, 26 de Abril de 2007.
MEDEIROS, Jordan de Souza. Neuroteologia: a experiência religiosa sob um olhar neurocientífico.


