(Português do Brasil) COP 30: O planeta nos chama, mas o GPS parece estar confuso (V.8, N.10, P.5, 2025)

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#acessibilidade: Ilustração de fundo verde com meio globo terrestre na direita e «COP30» ao seu lado. A imagem é originalmente da divulgação da ONU feita em https://brasil.un.org/pt-br/301371-cop30-no-brasil.

Texto escrito pelo colaborador Ronei Miotto

A 30a Conferência entre as Partes, ou simplesmente COP 30, marca os 10 anos do Acordo de Paris e os 33 anos da ECO 92. Esta será a primeira edição da COP realizada no Brasil, mais precisamente em Belém do Pará. É fato que a cidade não está preparada para receber um evento dessa magnitude e em meio à polêmica associada a falta de estrutura, pouca atenção é dada pela mídia ao ponto mais importante: o que é, para que serve e quais os desafios da COP 30.

A COP 30 é uma oportunidade histórica para que a humanidade assuma compromissos globais, alinhando as metas de redução de emissões de gases do efeito estufa à ciência climática e assegurando financiamento adequado para enfrentar e mitigar os impactos das mudanças climáticas, especialmente em populações vulneráveis. Um dos maiores desafios é o alinhamento dos compromissos entre países desenvolvidos e em desenvolvimento quanto ao financiamento climático. A meta estabelecida na COP 29 de US$ 300 bilhões anuais é um passo inicial, mas ainda distante dos US$ 1,3 trilhão anuais necessários para a transição energética e adaptação g lobal. O encontro realizado no Brasil tem como uma das metas centrais mobilizar esses recursos, especialmente para os países mais pobres e vulneráveis, garantindo uma transição justa e sustentável que permita investimentos públicos e privados em energias renováveis, tecnologia e inovação. [1]

Outro desafio é garantir que as metas de redução de emissões dos países sejam compatíveis com os limites indicados pela ciência. O Brasil já apresentou uma nova NDC (um documento que detalha o compromisso de redução de emissão nacional e meios para atingi-la) com a meta de reduzir suas emissões líquidas entre 59% e 67% até 2035, o que reflete uma ambição alinhada ao Acordo de Paris. Contudo, poucos países submeteram metas suficientemente ambiciosas. A COP 30 será decisiva para um aumento – ou não – dessas metas, passando da negociação à implementação das ações previstas, com mecanismos robustos de monitoramento e revisão periódica dos compromissos. [2]

A proteção da Amazônia, cujas florestas já ocuparam  60% do território brasileiro, será tema central na COP 30. Além de ser fundamental para o equilíbrio climático global, a floresta amazônica representa atualmente o bioma brasileiro na fronteira de expansão do agronegócio [3], que avança sobre a floresta da porção sul do bioma com grande velocidade. A proteção a florestas é de  extrema importância para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas, especialmente no que se refere à circulação de umidade do Norte para o Sudeste do país. Outros biomas florestais brasileiros já foram altamente impactados e os fragmentos de floresta nativa restantes, em sua maioria, encontram-se em áreas de difícil acesso e de pouco interesse para expansão agrícola ou, eventualmente, em unidades de conservação. O combate ao desmatamento ilegal e à degradação da vegetação nativa da Amazônia, bem como o incentivo à bioeconomia e soluções baseadas na natureza, são desafios imprescindíveis e uma chance de modificar os caminhos adotados em áreas de Mata Atlântica e Cerrado, por exemplo. O Brasil precisa superar a falta de consenso interno sobre o manejo da Amazônia, conciliando desenvolvimento econômico, proteção ambiental e dos povos originários e justiça social para sua vasta população, que vive em condições desiguais. [4]

A transição energética justa, com o abandono dos combustíveis fósseis, é um tema de grande relevância. O Brasil tem uma matriz energética majoritariamente limpa e um programa de biocombustíveis com mais de 50 anos, mas precisa avançar em políticas para eliminar progressivamente o uso de combustíveis fósseis, integrando setores como a indústria e o agronegócio na transição de baixo carbono. A mobilização de atores não estatais, como empresas, cidades e setor financeiro, será essencial para implementar compromissos de forma ampla e eficaz. Por outro lado, a realidade da maior parte dos países em desenvolvimento é bastante distinta: suas matrizes energéticas estão baseadas na queima de combustíveis fósseis. Nesse cenário, como aliar as necessidades de desenvolvimento desses países com a diminuição de emissões? A resposta a essa pergunta é um dos desafios a serem tratados. Para tornar a situação ainda mais complexa, a crise geopolítica mundial, com polarizações, extremismos e guerras comerciais tende a dificultar o avanço das negociações climáticas. Neste ambiente, resta saber quem exercerá uma diplomacia estratégica para proteger o regime climático internacional, articulando alianças multilaterais e promovendo consenso, sem espaço para improvisações.

Em resumo, a COP 30 tem o enorme desafio de mobilizar compromissos conjuntos e ações concretas em um cenário de urgência climática. A conferência deverá focar na implementação das metas climáticas com financiamento robusto, justiça social e participação inclusiva, preservação da Amazônia e uma transição energética justa, enquanto enfrenta desafios diplomáticos e econômicos globais para garantir seu sucesso efetivo e inclusivo. A escolha de Belém como sede da COP 30 relaciona-se exatamente com a importância da Amazônia para a reunião de 2025. Mas assim como enxergar de perto a floresta pode ajudar a enfrentar os desafios à mesa, a participação em massa de representantes dos diversos atores globais é importante para o sucesso da COP 30. Será que passamos do ponto? Pare o mundo que eu quero descer ….

Fontes:

Financiamento climático: evitar a mudança do clima seria muito mais econômico do que combater seus efeitos, disponível em https://cop30.br/pt-br/noticias-da-cop30/financiamento-climatico-evitar-a-mudanca-do-clima-seria-muito-mais-economico-do-que-combater-seus-efeitos, acesso em 31/08/2025.

A um ano da COP 30, quais são os desafios fundamentais?, disponível em https://fundacaofhc.org.br/debate/a-um-ano-da-cop-30-quais-sao-os-desafios-fundamentais/, acesso em 31/08/2025.

Mapa de vegetação do Brasil. IBGE 2004

COP 30 NA AMAZÔNIA: QUANDO O BRASIL VAI COMEÇAR A OUVIR, REPARAR E PROTEGER OS ATINGIDOS…, disponível em https://mab.org.br/en/2025/08/22/cop-30-in-the-amazon-when-will-brazil-start-listening-to-repairing-and-protecting-those-affected-by-climate-change/, acesso em 31/08/2025.

Para saber mais:

https://cop30.br/pt-br/sobre-a-cop30/o-que-e-a-cop

https://www.wwf.org.br/cop_30/

https://aeqp.org.br/news/9/os-7-maiores-desafios-da-cop30-em-belem

https://www.gov.br/planalto/pt-br/agenda-internacional/missoes-internacionais/cop28/cop-30-no-brasil

Terras Raras: Terra Soberana

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