#acessibilidade: Uma placa de vidro com um pó vermelho (corante carmim), um dos corantes naturais mais antigos e ainda usados na indústria moderna. Ao redor grão secos representado os insetos secos (cochonilha) de onde são retirados esse pigmento.
Texto escrito pelo colaborador Calvin Q. Cabello
Desde os tempos mais antigos, o ser humano sempre se encantou pelas cores. Muito antes da criação dos corantes sintéticos em laboratórios, as cores que conferiam tingimento a roupas, pinturas e objetos do cotidiano vinham diretamente da natureza. Minerais, plantas e até animais eram usados para produzir pigmentos que faziam parte de rituais religiosos, tradições culturais e até mesmo estratégias de poder político e social.
As primeiras manifestações do uso de pigmentos naturais estão registradas nas pinturas rupestres feitas há milhares de anos. Os povos pré-históricos já sabiam extrair coloração de frutos, raízes, flores, cascas e insetos por meio de processos simples, como a trituração e a aplicação direta em superfícies. Embora esses pigmentos fossem pouco duráveis — especialmente em tecidos ou em contato com água —, eles tinham um grande valor simbólico para aquelas comunidades.
Com o passar do tempo, diferentes civilizações desenvolveram técnicas mais complexas para obter e fixar as cores, o que tornou o domínio desses processos uma forma de prestígio. Em muitas culturas, o conhecimento sobre como preparar certos pigmentos era mantido em segredo por castas de artesãos ou grupos religiosos. As cores deixavam de ser apenas elementos estéticos e passavam a representar status, poder e identidade.
Entre os corantes naturais mais famosos da história, o anil se destaca. Extraído das folhas da planta Indigofera tinctoria, esse pigmento foi muito valorizado por sua tonalidade intensa e por sua resistência à luz e à lavagem. Produzi-lo exigia um processo de fermentação complexo, e há registros de seu uso com mais de quatro mil anos de idade. O explorador Marco Polo, por exemplo, descreveu o uso do anil durante suas viagens pela Ásia. Séculos depois, o corante se tornaria um produto altamente valorizado na Europa, especialmente entre os séculos XVIII e XIX, sendo o corante responsável pela cor das calças jeans.
Outra cor de grande importância histórica é a púrpura, com o corante púrpura tíria sendo obtido a partir de moluscos marinhos do gênero Murex. Esse pigmento era tão raro e difícil de extrair que passou a ser associado à realeza e à autoridade imperial. Para se ter uma ideia, o imperador romano Nero chegou a decretar pena de morte para quem tentasse produzir o corante sem autorização do governo, tamanha sua importância simbólica. Um triste efeito colateral dessa importância extrema dada a esse pigmento, foi que a sua produção levou à extinção de algumas espécies do gênero de moluscos usados como fonte.
Os tons de vermelho também exerceram um papel marcante ao longo da história. Um exemplo é o pau-brasil, árvore nativa da Mata Atlântica que deu nome ao nosso país. Da madeira desta planta se extrai um corante vermelho intenso, cujo nome remete ao termo germânico brasa, por sua semelhança com a cor do fogo. O pau-brasil foi um dos primeiros produtos explorados pelos colonizadores portugueses no Brasil, e sua intensa extração acabou colocando a espécie em risco de extinção.
Mas a história do pau-brasil e suas influências são muito conhecidas pela população brasileira. A história de hoje é sobre outros corantes vermelhos que tiveram ainda mais impacto linguístico à língua portuguesa do que o nome do nosso país.
Um dos mais antigos corantes vermelhos conhecidos é o quermes, extraído das fêmeas grávidas do inseto Kermes ilicis, um tipo de pulgão que vive em carvalhos do Mediterrâneo. O pigmento escarlate obtido a partir desses insetos era usado desde a Antiguidade por egípcios, gregos e romanos, sendo um símbolo de riqueza e autoridade.
Com o tempo, o quermes foi substituído por outro corante vermelho ainda mais intenso e duradouro: o carmim, derivado da cochonilha-do-carmin (Dactylopius coccus), cultivada especialmente no México e em regiões andinas da América do Sul. As fêmeas secas desse inseto produzem uma coloração vermelha vibrante, que conquistou a Europa a partir do século XVI, após a colonização das Américas.
O carmim não apenas tingiu tecidos luxuosos por séculos, mas também foi utilizado em pinturas, cosméticos e, até hoje, em alimentos industrializados. Sendo este um corante que pode ser obtido de forma muito eficiente e com boa durabilidade fizeram com que se tornasse um produto altamente valorizado no comércio colonial. Sendo um dos poucos corantes naturais de origem animal ainda usados comercialmente em larga escala, é conhecido nos rótulos como “corante natural carmim” ou pelo código E120, e utilizado até na indústria alimentícia e cosmética.
A influência desses dois corantes obtidos a partir de insetos foi tão grande, que o nome da cor “vermelho”, na língua portuguesa, foi devido a eles. Em quase todas as línguas latinas, a palavra que designa essa cor deriva do termo latino rubrum, como rouge (francês), rosso (italiano), rojo (espanhol), mas não só as latinas, rot (alemão) e red (inglês) também são parecidas, pois todas essas derivam da mesma origem indoeuropeia: reudh. Entretanto, no português a palavra é bem diferente, a palavra “vermelho” deriva de vermiculus do latim, que significa “pequeno verme”, já que na época não se conhecia a origem entomológica exata desses corantes. Apesar de a palavra “rubro” existir em português — vinda diretamente de rubrum — ela se tornou um termo literário ou poético, sendo “vermelho” o nome comum da cor no uso cotidiano.
Apesar da longa tradição no uso de pigmentos naturais, essa prática começou a ser substituída no século XIX com o avanço da indústria química. A criação dos primeiros corantes sintéticos mudou completamente o cenário. Empresas como a BASF nasceram com o objetivo de fabricar corantes artificiais, e seus primeiros grandes sucessos foram a alizarina sintética, em 1871 — substituindo a extraída da Rubia tinctorum — e o anil sintético, em 1880, que tinha importantíssima aplicação na época, sendo o corante do jeans. A síntese do índigo, realizada por Adolf von Baeyer, foi tão revolucionária que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Química em 1905. Apenas alguns anos depois, o corante natural havia sido praticamente substituído pelo sintético de escala industrial.
Mesmo com o domínio dos corantes sintéticos, os pigmentos naturais nunca desapareceram completamente. Ainda hoje, são amplamente utilizados na indústria alimentícia e cosmética, sobretudo por sua baixa toxicidade e apelo sustentável. No Brasil, o urucum (Bixa orellana) é um dos corantes naturais mais populares, conhecido como colorau, usado na culinária. Ele contém carotenoides como bixina e norbixina, responsáveis pela coloração laranja-avermelhada. Outros exemplos são a cúrcuma (Curcuma longa) e o açafrão (Crocus sativus), utilizados há séculos por povos asiáticos e europeus.
Com o aumento da preocupação ambiental e da busca por produtos mais naturais, os corantes naturais têm ganhado novo fôlego. Além de serem biodegradáveis, geralmente apresentam baixa toxicidade e menor impacto ambiental em sua produção. Isso tem estimulado a pesquisa e o desenvolvimento de novas aplicações para essas substâncias, inclusive na área de embalagens sustentáveis, biotecnologia e até sensores químicos.
As principais famílias químicas de corantes naturais incluem as antraquinonas (como o carmim), carotenoides (como os presentes no urucum e no açafrão), indigoides (como o índigo), além de flavonoides, antocianinas, betalaínas, compostos alcaloídicos e outros polifenóis. Esses compostos não apenas colorem, mas também apresentam propriedades biológicas que podem ser aproveitadas em diversas áreas, como ação anti-inflamatória utilizados como remédios.
A história dos corantes naturais é também a história da própria humanidade. Ao acompanhar as cores que marcaram civilizações, religiões, impérios e descobertas científicas, percebemos que, mais do que estética, elas carregam significados culturais, sociais e até econômicos. E mesmo em plena era tecnológica, seguimos encantados com aquilo que a natureza tem a nos oferecer em forma de cor.
Fontes:
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Araújo, M. E. M. D. Natural dyestuffs from Antiquity to modern days. Conserv. Património 3–4, 39–51 (2006).
Silva Santos, N., Araújo Tavares Da Silva, F. L. & Santos Leite Neta, M. T. CORANTES NATURAIS: IMPORTÂNCIA E FONTES DE OBTENÇÃO. RECIMA21 – Rev. Científica Multidiscip. – ISSN 2675-6218 3, e331165 (2022).
Para saber mais:
Yusuf, M., Shabbir, M. & Mohammad, F. Natural Colorants: Historical, Processing and Sustainable Prospects. Nat. Prod. Bioprospect. 7, 123–145 (2017). https://doi.org/10.1007/s13659-017-0119-9



