#acessibilidade: Ilustração 3d de aeronave AN225 sob as nuvens.
Texto escrito pela colaboradora Lívia Souza
Você já imaginou entrar em um avião comercial, escolher seu assento, guardar a mala de mão e, ao ouvir o anúncio de decolagem, perceber que não há nenhum piloto na cabine? Parece roteiro de filme futurista, mas essa possibilidade já não pertence apenas ao mundo da ficção. A tecnologia para voos autônomos existe e vem sendo testada por grandes empresas da aviação, ainda que cercada de debates sobre segurança, regulação e confiança dos passageiros.
Se hoje imaginamos a cabine sem pilotos, é importante entender como a automação da aviação evoluiu ao longo das décadas. Nos anos 1950, os voos comerciais eram realizados com até cinco tripulantes no cockpit: engenheiro de voo, operador de rádio, navegador e dois pilotos. Hoje isso pode parecer exagero, mas era indispensável diante da quantidade de instrumentos analógicos presentes na cabine.
A transformação veio com a evolução dos computadores de bordo na década de 70, quando a tripulação foi reduzida apenas aos pilotos. A grande virada se consolidou com a introdução do fly-by-wire.
Nos aviões antigos, os comandos do piloto eram transmitidos por cabos e roldanas até os atuadores hidráulicos responsáveis pelos movimentos das asas e da cauda. Com o fly-by-wire, esses cabos foram substituídos por fiação elétrica e instrumentos digitais. Isso aumentou a precisão, reduziu o peso e trouxe a chamada proteção de envelope de voo, que impede manobras fora dos limites seguros de ângulo e velocidade.
O fly-by-wire abriu caminho para o glass cockpit. Em vez de dezenas de mostradores analógicos, os dados de velocidade, altitude, potência e demais parâmetros passaram a ser exibidos em telas digitais. Isso simplificou a cabine, melhorou a ergonomia e facilitou a leitura dos sistemas. Hoje, grande parte das aeronaves já é pré-programada com o plano de voo. O piloto automático é acionado logo após a decolagem, a partir de cerca de 400 pés (120 metros), podendo conduzir o avião até a altitude de cruzeiro. Aos pilotos cabe monitorar o sistema e intervir apenas em situações inesperadas, como mudanças de rota por causa do clima ou instruções do controle de tráfego aéreo. Até a aproximação final do aeroporto o voo é realizado de forma automatizada. Só nos instantes finais, quando a pista está visível, o piloto assume o controle manual. Embora sistemas como o autoland já permitam pousos totalmente automáticos, as companhias aéreas ainda preferem manter essa manobra sob comando humano, ao menos até agora.
O que esperar do futuro?
O processo de automação da aviação mostra que avanços tecnológicos não surgem de repente, mas evoluem passo a passo, sempre com o objetivo de tornar o voo mais seguro e eficiente. Esse histórico de inovação abriu caminho para projetos como o ATTOL (Autonomous Taxi, Take-Off and Landing) da Airbus, realizado para testar sistemas capazes de executar de forma autônoma taxiamento, decolagem e pouso, as fases mais críticas do voo.
Em junho de 2020, a Airbus concluiu a campanha de teste com 500 voos experimentais com um A350, aeronave comercial com capacidade para transportar entre 280 a 366 passageiros. O ATTOL investigou como algoritmos de aprendizado de máquina e ferramentas automatizadas de rotulagem, processamento e geração de modelos de dados poderiam ajudar os pilotos a se concentrar menos na operação direta da aeronave e mais em decisões estratégicas e no gerenciamento da missão.
Em seis dessas operações, o avião decolou e pousou sem qualquer intervenção humana, com pilotos presentes apenas por segurança. Os testes foram considerados bem-sucedidos, todas as fases foram executadas de forma autônoma utilizando visão computacional. Para a Airbus, essa conquista redefine a forma como imaginamos a aviação comercial. Em outras palavras, a tecnologia evoluiu para os aviões voarem sem pilotos.
A corrida não é exclusiva. Em 2019, a empresa Reliable Robotics fez um Cessna 172, pequeno avião monomotor, decolar, voar por 15 minutos e pousar de maneira totalmente autônoma na Califórnia. No Brasil, a Embraer, em 2022, realizou testes para avaliar sistemas autônomos de voo, em cenários comuns e extremos, incluindo decolagem, subida, voo de cruzeiro, aproximação e pouso da aeronave.
Mas se a tecnologia já está aí, o que nos impede de embarcar amanhã em um voo sem pilotos? A resposta não é simples. Além da resistência cultural, (afinal, quantos passageiros estariam dispostos a confiar sua vida a um software?) existem barreiras técnicas e regulatórias. Para que um avião seja de fato autônomo, não basta que ele decole e pouse sozinho, é necessário repensar todo o sistema de tráfego aéreo, tornando-o também autônomo, com comunicação em tempo real entre aeronaves e torres de controle. Isso exige redes seguras, livres de falhas e de ataques cibernéticos, e pouca latência (tempo entre comando e resposta) entre o solo e aeronaves que estão a mais de 900 km/h, o que torna a aplicação da tecnologia ainda distante.
Estudos indicam que a adoção comercial da aviação totalmente autônoma pode acontecer apenas em meados de 2060. Até lá, especialistas apontam que o caminho mais provável será o transporte de cargas e, em paralelo, aeronaves com apenas um piloto a bordo, assistido por sistemas cada vez mais inteligentes.
No fundo, a discussão sobre aviões sem pilotos vai muito além da tecnologia. Trata-se de repensar nossa relação com a confiança. Talvez, no futuro, a ausência do piloto seja vista com a mesma naturalidade com que hoje encaramos o piloto automático, que já conduz grande parte do voo sem que percebamos. Até lá, seguimos lembrando que, por enquanto, ainda há alguém para anunciar “tripulação, preparar para a decolagem”.
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