A química descolada dos dedos colados (V.9, N.3, P.2, 2026)

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Tempo de leitura: 4 minutos
#acessibilidade: Fotografia das mãos de uma pessoa fazendo artesanato com cola.

Texto escrito pelos colaboradores Regiani Maria Leopoldina Martins Sandrini e Camilo Andrea Angelucci

Quem nunca grudou os dedos com supercola (super bonder®) tentando consertar algo e se perguntou como é possível eu grudar os meus dedos de novo e não conseguir grudar as peças? E levante as mãos para sempre unidas com super bonder®, quem nunca se perguntou como é que esse líquido transparente não cola dentro do tubo de cola? Para responder à essas e outras perguntas, vamos fazer um passeio pela história e pela composição química desse incrível produto.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o químico Harry Coover [1] e sua equipe buscavam desenvolver novos materiais para serem utilizados em armas. Durante a realização desses testes, encontraram uma substância que colava praticamente tudo e de maneira muito rápida, deixando o laboratório todo grudento (ou grudado?), mas que posteriormente, tornou-se uma descoberta inovadora e  sendo comercializado na forma de colas instantâneas, ou popularmente conhecido como super cola ou super bonder® .

A origem do superpoder de colar está na sua composição química. Dentro do frasco, o líquido é uma solução de blocos químicos (monômeros), como se fossem minúsculas peças de Lego®. Essas peças tem conectores pino e conectores buraco, que podem se ligar em lugares e em um arranjo definido (pino no buraco e nao pino no pino). Assim com as peças do brinquedo, ao juntarmos muitos monômeros da maneira correta, serão formadas longas cadeias moleculares que resultam em um material sólido, forte e resistente. Na torre de blocos coloridos, assim como na química das super colas, a união dos blocos de construção necessita de um estímulo para ocorrer. No caso das super colas basta adicionar ÁGUA, que está  no ar que nos rodeia e na superfície da sua pele. Portanto, a polimerização (processo conectivo dos monômeros) é  muito fácil de ocorrer. 

Aqui já dá para responder àquelas perguntas do início do texto. Somente quando retiramos o conteúdo e deixamos exposto a umidade é que a “mágica” acontece. Mas sabemos que não é mágica e sim. química! Para entender o processo com mais detalhes, vamos conhecer  o cianoacrilato. O cianoacritalo é o bloco de Lego® que comentamos antes. Essa molécula tem uma propriedade denominada eletrofílicidade, parece que ela é feliz, e é ao roubar elétrons de outras moléculas. E adivinha qual molécula ele adora roubar esses elétrons? Se você respondeu ÁGUA, acertou!. Então, quando o cianoacrilato encontra a água, o processo de polimerização (ou junção dos blocos químicos) ocorre.  Assim, em poucos segundos forma-se uma camada sólida de polímero que adere com força e resistência à superfície e materiais diversos, como madeira, plásticos e também sua pele! Afinal, a pele é úmida e coberta por pequenas quantidades de água, o que proporciona as condições perfeitas para o cianoacrilato reagir e ancorar nas partes que se unirão, no caso seus dedos e se for uma pessoa comum, nos dedos e nas peças do brinquedo quebrado.

A história da formulação da supercola vai muito além dos acidentes domésticos e dedos grudados.  A rápida adesão e a biocompatibilidade  tornaram-na útil em diversos setores, em destaque, na medicina, como adesivo ósseo e sutura de cortes[2]. Mas muito cuidado, a formulação da supercola usada em ambientes hospitalares são diferentes das supercolas que encontramos à disposição em gôndolas dos supermercados. Isso nos leva a um alerta: não devemos usar a supercola como forma de reparo de feridas! 

Mas e quando os dedos grudam? A Química também pode oferecer soluções… Neste caso, uma mistura de vinagre, e bicarbonato de sódio pode ajudar a desfazer o adesivo formado. O vinagre penetra na camada endurecida e provoca o amolecimento das cadeias poliméricas, enquanto o bicarbonato que atua como uma base fraca e abrasivo leve, ajuda a remover mecanicamente o material. A reação entre os dois libera dióxido de carbono CO2 e as bolhas formadas contribuem para o desprendimento da cola. Outra opção seria o uso da acetona, presente em soluções removedoras de esmaltes. Essa substância é capaz de quebrar as ligações entre as cadeias do polímero, permitindo que a cola se solte da pele com maior facilidade. Porém, a acetona é mais tóxica do que vinagre e bicarbonato. 

Compreender como o cianoacrilato se comporta em diferentes meios é um exemplo simples de como a química pode estar presente no nosso cotidiano. Saber que a cola depende da umidade, por exemplo, permite não só prevenir acidentes, mas também utilizá-las de forma mais controlada e, portanto, mais segura. Assim, da próxima vez que você colar algo, seus dedos ou o braço do seu boneco de super-herói, lembre-se: há uma aula inteira de química acontecendo ali.

Referências:

[1] DA Aronovich, Modern Achievements in the Field of Cyanoacrylate Adhesives: Synthesis of Cyanoacrylate Monomers, Polym. Sci. Ser. D Vol. 12 (2019) 401–409.

[2] R. Torres, R. Christina, B. Gomes, P. Vanessa, Use of cyanoacrylate in the coaptation of edges of surgical, An. Bras Dermatol. 87 (2012) 871–876.

Para saber mais:

O que é SUPER COLA? Por que a SUPER COLA é tão FORTE?

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