Você sabe o que são convergências evolutivas? (V.9, N.6, P.5, 2026)

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Tempo de leitura: 4 minutos
#acessibilidade: A imagem apresenta um morcego da espécie Trachops cirrhosus se aproximando de um sapo, Craugastor fitzingeri, no Panamá. Créditos a Merlin Tuttle.

Texto escrito pelas colaboradoras Anna Beatriz Leite, Helen Cristina Oliveira, Jéssica Santos e Vanessa Verdade

Você com certeza conhece alguns animais com asas e que podem voar, certo? Pode ter pensado em insetos como abelhas e borboletas, ou em vertebrados, como aves e morcegos, quem sabe pensou até em um pterossauro? Embora todos tenham asas, você também consegue perceber que são muito diferentes uns dos outros. E uma pergunta interessante quando pensamos nisso, é, se todos voam e as asas servem para voar, não deveríamos esperar que todas as asas fossem iguais?

Na natureza existem semelhanças entre os seres vivos que podem ser classificadas em tipos diferentes, de acordo com sua origem. Aquelas características compartilhadas que foram herdadas de um mesmo ancestral comum, indicam parentesco evolutivo. São as homologias. Por exemplo, glândulas mamárias surgiram no ancestral comum dos mamíferos e foram herdadas por todas as linhagens de mamíferos desde então. A glândula mamária dos mamíferos são todas homólogas, estejam presentes em um ornitorrinco, em um canguru, em uma gatinha ou em uma mulher. Por outro lado, existem as analogias, também chamadas de homoplasias, que são características que podem parecer iguais à primeira vista, mas têm origens diferentes. Esse é o caso das asas, com o qual começamos o texto. As asas de aves, abelhas, borboletas e morcegos não surgiram em um mesmo ancestral. O que apresentam em comum é a função – permitem, em conjunto com outras características, que esses animais voem. Na prática, isso significa que o ancestral comum de pterossauros, aves e morcegos não possuía asas e essa característica surgiu posteriormente e três vezes dentro do grupo ao qual pertencem – os vertebrados amniota (aqueles que botam ovos como os de galinha, que apresentam membranas que protegem o embrião). O mesmo se aplica aos ancestrais de abelhas e borboletas.

O surgimento independente de características que têm função parecida ocorre por um processo que chamamos convergência evolutiva e que envolve dois fatores principais: genética e a seleção natural. Primeiramente, a partir de mutações ou recombinações do material genético podem surgir características novas ou modificadas em relação às presentes nos ancestrais. Essas diferenças podem aumentar, diminuir ou não alterar as chances de sobrevivência e reprodução dos indivíduos que as apresentam. Aquelas que aumentarem a chance de sobrevivência e o número de filhotes dos indivíduos que as possuem tendem a aumentar em frequência a cada geração, até que se tornem as mais comuns.

Se voltarmos a pensar em asas, é fácil imaginar as vantagens que voar trouxe a esses organismos. Possibilitou maior capacidade de fugir de predadores, explorar novos espaços e conseguir outros alimentos. Mas atenção, as asas não surgiram prontas. A origem das asas é muito antiga e remete aos peixes de nadadeira lobada. Sim! As asas são membros anteriores modificados! Nesse sentido, asas de aves e de morcegos têm origem comum, ambas apresentam úmero, rádio, ulna, elementos do carpo e falanges e são homólogas a nossos braços. No entanto, as rotas de modificação que surgiram ao longo da evolução em cada uma dessas linhagens, é bastante diferente. A asa de um pterossauro eram formadas por uma membrana, sustentada principalmente pelas falanges do quinto dedo da mão. A asa das aves é formada por penas, sustentadas pelo braço e apresenta somente três dedos reduzidos. Finalmente, a asa dos morcegos é formada também por uma membrana, mas sustentada pelas falanges dos dedos da mão.

As convergências evolutivas são muito comuns e podem ser observadas nos membros em forma de remo em animais aquáticos (em tartarugas, pinguins e baleias), na perda de membros em animais que vivem próximo ao solo, se deslocando entre obstáculos próximos ao substrato ou logo abaixo dele (como em lagartos, serpentes e anfíbios gimnophionos) ou na ecolocalização que surgiu independentemente em cetáceos e morcegos e permite que esses animais compreendam o ambiente através de distorções nas ondas sonoras que emitem. As diferenças nas estruturas que apresentam funções semelhantes são o que permite separar estruturas homólogas de estruturas análogas. E mais, são uma evidência importante de que asas não surgiram para voar, ou membros em forma de remo, para nadar. Não existe controle sobre quais características e modificações ocorrem na evolução. Os processos genéticos que geram variação são aleatórios. Daí, caminhos diferentes levando à mesma função, especialmente quando as pressões seletivas do ambiente são as mesmas.

Aposto que depois de ler esse texto você deve estar pensando que, se os filmes fossem fiéis à evolução, dragões não teriam quatro patas e asas, ou a Malévola não teria dois braços e asas – ou um, ou outro! Não? Fui só eu?

 

Fontes: 

Benedito, E. Biologia e Ecologia de Vertebrados. Rio de Janeiro: Roca, 2015. ISBN 978-85-277-2698-6

Busanello, M.Z., Trigo, C. 2021. Vamos falar sobre ecolocalização dos golfinhos?Centro de Estudos Costeiros Limnológicos e Marinhos – CECLIMAR. 2021. Disponível em https://www.ufrgs.b/ceclimar/vamos-falar-sobre-ecolocalizacao-dos-golfin

Ridley, M. Evolução. 3ed. Porto Alegre: ArtMed, 2011. ISBN 9788536308630

 

Para saber mais:

Canal Bio comigo: Analogia x homologia. https://youtu.be/x1Bba3f8qA0?si=wsgEqx1UhDROZ0gx

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